sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Carta ao Amigo Padre

Interrompo momentaneamente a continuidade da novela que comecei a escrever para postar aqui uma carta que enviei a um amigo padre. Este, porventura, é meu amigo de infância, e assim sendo, vi todo o diferencial que tinha sua alma desde quando era criança. Estudamos juntos, num colégio de freiras no interior de Alagoas, e ali surgiu o início de uma grande amizade. Embora distantes, sempre trocamos e-mails. Recebo sempre mensagens e textos que ele envia para os fiéis e familiares. Muito embora eu não seja católigo e hoje não siga religião nenhuma, tenho um profundo respeito pela fé e acredito em Deus, mesmo que para muitos seja de maneira um tanto quanto “vagabunda”. Transcrevo então a carta que enviei-lhe em resposta a um artigo recebido. Talvez nem tanto ao artigo propriamente, que falava a cerca do Nascimento de Jesus, mas em resposta à carta do estimado amigo inspirado na fé  para um simples ator que não acredita em religião alguma.

 

From: Oscar Calixto

Sent: Friday, December 25, 2009 6:17 AM

To: Padre Thiago Soares

Subject: Re: FELIZ NATAL! "Vamos a Belém?"

 

Meu amigo, Padre Thiago;

Eu li e gostei muito do seu artigo. Tenho que dizer que fico muito feliz por ver meu amigo tão cheio do amor de Cristo. Sou testemunha de quão presente sempre esteve essa semente que agora, vê-se, é árvore frondosa em seu coração. Sinto muitas saudades de você, meu amigo, e também o incluo em minhas orações. Incluo você, sua casa, sua igreja e sua família. Incluo principalmente os que mais necessitam de palavras como as suas que não somente esclarecem que há alguém muito importante que nos amou e nos ama, que nos ouve e que nos dá a mão quando é preciso e que veio ao mundo para nos dar a salvação, mas que mostra o quanto somos egoístas com essa falsa fé que habita em nossos corações. No entanto quem sou eu para falar disso e querer ter alguma propriedade ou inocência nessa questão! Não passo de um pecador que mais pede perdão que outra coisa... Contudo, acredito que ainda sou filho e que ainda posso ser merecedor de perdão e da remissão dos meus pecados.

Há alguns anos, não muito distantes, cheguei a questionar a Deus o porquê de tanto sofrimento em minha vida, hoje eu não o questiono mais e só agradeço pelo que me dá ou me permite passar, pois tudo que nos é dado é para algum aprendizado nessa vida. Ainda que nunca tenha tido em meu coração a maldade, a perversidade, ainda que eu não seja um ser humano ruim (sei que não sou), estou certo de tudo que enfrentei e enfrento é por algum motivo nobre para as causas da minha alma, do meu espírito.

Eu, mero pecador, nesse dia tão especial, só quero agradecer por um dia ter vindo o Cristo que nos libertou e me permitiu encontrar um amigo de alma tão nobre e tão bonita como a sua. Aqui, já quase ao amanhecer do dia, lembro-me de todas as nossas aventuras no colégio, na rua e de algumas conversas que tínhamos sobre o mundo  e sobre a vida. Eu, honestamente, ando chocado com as coisas que tem acontecido no mundo atualmente. E embora distante de você, meu amigo Padre, eu sei que posso compartir de alguma coisa nobre desse ser que vive tentando consertar a alma que há de ir embora logicamente arrependida.

Eu não sei se Deus nos põe à prova, mas faz tempo que a vida me desafia. Tenho lutado pelo meu lugar ao sol e, acredite, isso tem sido quase como querer regar um jardim com torneira que nem pinga. Graças a Deus estou bem de saúde, e mesmo que não estivesse, mesmo assim, o faria. Eu curei o meu corpo, mas sei que a minha alma também precisa de medicina. Essa correria toda, lutando todos os dias pela mesma coisa, tentando ser um ser humano cada vez melhor; por vezes até desanima. Posto que nos vem a prova novamente e logo nos perguntamos o por quê que nossa bela música desafina!

Amigo, não quero ser mais um a lhe pedir orações… Como se pedir para orar por mim, pela minha vida, pela minha casa e minha profissão fosse remédio. Não vou lhe pedir isso não, porque apesar de saber que Deus o escutará muito mais que a mim, talvez eu não queira que orem para que Deus repare essa minha ferida em prol do fim desta agonia e da minha própria "felicidade". Talvez eu até necessite que essa ferida não feche agora, talvez eu necessite que ela sangre tudo que tem que sangrar, para que, quem sabe assim, eu me torne mais forte e tenha minha alma mais limpa, me tornando assim mais merecedor daquilo que anseio nesta vida.

Eu sinto muita falta das nossas conversas, nós víamos a vida como uma coisa tão simples, não é? Pois a cada dia acho-a mais simples ainda, nós é que verdadeiramente a complicamos. Às vezes pego-me aqui pensando que essa nossa luta pela "independência", pela nossa sustentabilidade financeira é uma coisa muito cretina. Pagamos por tudo aquilo que Deus nos deu de graça! Você não acha isso irônico? Gostaria muito de saber quem foi o primeiro que cercou um pedacinho de terra e disse que era seu... Seu? Como? Não sabia que Deus tinha cartório! E nem que lavrava escritura! Por causa desse mentiroso é que hoje corremos tanto para manter a nossa "morada". E sempre que pago as contas de casa, o bendito aluguel, o supermercado e as contas do mês, eu fico pensando que babaquice o mundo assumiu para os seus dias, pois pago as contas de um lugar que verdadeiramente nem é a minha morada, o aluguel de um pedaço de terra que, por teoria, foi-me dado de graça, assim como o alimento que dela surge! Tudo isso não foi feito para ser vendido, segundo a gênesis da humanidade. Enfim, hoje, eu não pedi nada a Deus não, nem mesmo perdão. Sei que pedir é um costume descarado que nós, pobres mendigos desse mundo, temos. E foi exatamente por isso que não pedi absolutamente nada. Apenas agradeci por tudo que recebi e que recebo da vida, pela Sua Onipresença e por Sua breve estadia como homem nessa terra. Sendo assim, também acho, amigo, que não devo lhe pedir nada, esse e-mail é só mesmo para agradecer o seu artigo, a sua existência e a sua eterna amizade.

Um abraço acalentador no seu coração, meu Amigo, Padre e Irmão... Que sua palavra seja sempre inspiradora e inspirada para que os pobres corações e almas daqueles que vão na casa do Pai possam algum dia entender que é preciso parar de pedir tanto e passar a agradecer mais, posto que se fôssemos colocar na balança tudo que realmente somos e fomos até agora, o que realmente presta de nós, não pesaria quase nada.

De um pobre ser que luta para que este corpo repouse quieto, viva um pouco mais tranquilo na máquina endiabrada que o homem inventou e que trabalha o espírito esperando ao menos que, quando se for, digam que lá se foi uma nobre alma.

Oscar Calixto

Pecador, Ator, Diretor e Dramaturgo...

Das coisas da Vida e da Alma.

 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

No Íntimo – Capítulo I

O personagem e o autor desse texto são naturalmente ficcionais. No entanto, o leitor com o olhar um pouco mais perspicaz poderá perceber que a representação deste ser que se comunicará, a partir de agora, através de pensamentos, notas, desabafos, histórias e reminiscências de sua vida de maneira ácida, ferrenha, extremamente crua e por vezes ignóbia, é a parcela maior do que há nas pessoas da sociedade contemporânea. Desde que consideremos o quão camuflado esteja tal comportamento dentro daqueles que intimamente assim se apresentam e em que condições de vida tenha sido formada uma pessoa que chegue a nível de tal.

CAPÍTULO I

DA INSUSTENTÁVEL DISCONCORDÂNCIA

Eu sou um produto. E não tenho qualquer valor considerável. Sou uma espécie de mártir dessa incompreensível máquina chamada vida que, não obstante, não quer dizer nada. Eu fui um homem doente, por toda vida, apanhei toda espécie de doenças. Bronquite, hepatite, rinite, doenças venéreas e por fim um câncer. Este último eu venci. Mas ainda o tenho dentro de mim. Não quero confundir a cabeça do estimado leitor, mas é isto mesmo o que eu quero dizer. Um câncer, caro amigo, não é apenas um crescimento celular desordenado. Um câncer é tudo aquilo de ruim que silenciosamente se guarda. E o que quero dizer com isso? Que todos temos alguma espécie de câncer dentro de nós.

O impulsivo mecanismo de autodefesa daqueles que usam máscaras para esconder a sua verdadeira essência nesse momento deve distanciá-los de tal afirmativa. (E não se assuste se eu disser que você se esconde. Todos nos escondemos de alguma forma.) Contudo, é preciso que tal manifestação seja expulsa de você nesse exato momento. Que seja completamente varrida do seu íntimo como se fazem aos indesejáveis insetos que ousam alojar-se em suas belas casas. Não obstante, afirmo, não somos melhores que eles em nada.

Eu não estou aqui para mentir, nem fingir para o senhor ou a senhora que lê essas linhas e se enoja. Antes de tudo, quero afirmar que não sou uma farsa. Não sou um personagem, nem um escritor que mede palavras pomposas. Eu sou o que sou. Sou produto do seu meio e estou, assim como você, nessa incompreensível máquina a que chamamos de “vida” e para a qual eu honestamente desconsidero e objeto possuir tal nomenclatura. Apesar de ter-me safado inúmeras vezes de enrolar-me no eterno negro manto do esquecimento e de ter lutado com todas as minhas forças para vencer tais e tais riscos de morte (e isso por vezes me põe no lugar de herói) eu devo confessar que não o fiz por amor à vida. Mas por puro ódio! O mundo não poderia livrar-se assim de mim de maneira tão fácil. Eu preciso continuar existindo para mostrar o quanto ele fede. Sim, a vida é podre e podres somos nós.

Alguns de vocês (que não sei exatamente quem são) devem levantar hipóteses sobre a minha sanidade mental nesse momento, ou já devem estar incômodos em seus lugares querendo largar-me nesse mesmo instante e ver ou fazer algo mais interessante. Eu os instigo: Façam. Não me incomodo com isso. Enquanto vos falo eu mesmo fumo meu cigarro sem qualquer vergonha disso ou restirção. Ah, e quem é o próximo a achar isso um absurdo? Cigarro dá câncer! E eu sei disso! Existem mais de quatro mil substâncias tóxicas nessa porcaria! Mas eu só fumo dois maços... por dia. O cigarro é uma droga que mata devagar. Mas se eu estivesse mesmo com pressa de morrer, tentaria o suicídio. Contudo, livrar o mundo de mim de tal maneira seria um absurdo! Eu quero dar trabalho aos médicos. Tenho que ficar em cima de uma cama e fazer com que limpem os meus restos fecais que hão de feder muito e embrulhar o estômago de quem me limpa. Afinal de contas, que graça teria se cheirassem bem? Seria isso uma grande mentira.

A excreção nada mais é que a verdadeira identidade de todos nós. E em nossos banheiros é que somos verdadeiramente nós, desnudos, sentindo o nosso próprio cheiro e vendo como verdadeiramente somos, sem nada que nos torne um pouco melhor. Nós somos como os cães, e os cães não urinam para demarcar território, isso é uma mentira. É através da urina que eles se comunicam. Que sabem se um ou outro está doente ou não; é através disso que sabem quantos cães vivem em um determinado território. Mas eles não demarcam nada, posto que pouco se interessam pela posse das coisas nesse mundo. Nós é que os instruímos para que sejam egocêntricos como nós. Aliás, somos extremamente arrogantes nesse sentido, posto que queremos ser donos de tudo. Os donos do mundo somos nós. Mas o mundo mesmo... O mundo... Não tem dono! Esquecemos desse pequeno “detalhe”.

Atualmente estamos vivendo numa bomba-relógio, tal qual a que carregamos dentro de nós. O mundo está se acabando. Vivemos numa era verdadeiramente apocalíptica. Daqui a poucos anos, o que será de nós? Esses ventos... Essas tempestades... Esses ciclones... Esse mar revolto... As calotas polares... Os ursos... Os Ventos... As tempestades… Os homens... A Terra... A neve… O gelo… Os mares... O que será de nós? Nós, meus caros amigos, somos o câncer desse mundo. E temos um câncer dentro de nós. A verdade é que chegamos a um nível tal que só fazemos algo por alguém se esse alguém tiver feito algo por nós. E só o fazemos a todos, se houver nisso algum interesse meu, por mim, para mim ou para os outros que vão nascer deste egocêntrico eu que jamais teria a capacidade de viver ou morrer por todos nós. Eu, por exemplo, pensando unicamente em vingança, sobrevivo. Se não houvesse uma única pessoa nesse mundo a quem eu pudesse atirar as atrocidades que atiro sobre o íntimo que nos é comum, me entregaria ao manto do esquecimento. Porém, por pura e implacável necessidade de dar ao mundo uma dose do seu próprio veneno, eu não morro. Nem hei de morrer tão cedo! Viverei mais que Dercy Gonçalves!

Em tudo, é preciso dizer que ninguém no mundo é tão bom ou tão mau quanto parece. Ou seja, participamos todos do mesmo bolo fecal. Isso nos seria possível entender se todas as nossas intenções, pensamentos e sentimentos pudessem ser sensíveis aos nossos olfatos. Os odores seriam muito mais frequentes que os cheiros, isso eu afirmo e assino. Seria consideravelmente elegante se cada um de nós pudéssemos ser como os livros em que se folheia e se lê as páginas para descobrir o conteúdo. Eleger um político pelo verdadeiro cheiro ou conteúdo seria ótimo! Escolher os amigos e parceiros também seria um deslumbre. Mas infelizmente somos apenas como as capas desses livros e nada mais que isso. O conteúdo, às vezes, a gente descobre.

E voltando ao seu câncer, como será que ele anda? Esse tumor que você carrega está em qual nível? Será que você vai morrer disso? Eu não queria ser tão desagradável a ponto de assustá-lo ressaltando a gravidade do assunto... Mas é um problema seríssimo. O pior é que às vezes só a quimioterapia não cura. Não cura... A vida, meus senhores, não vale às vezes o que nela a gente busca. Eu sei que é uma indelicadeza dizer o que digo, e eu sinto em dizer, mas digo: Ela não vale uma prata do seu bolso. E isso aqui não é uma visão pessimista... De maneira alguma. Eu sou muito otimista, por sinal, e apesar de tudo. Eu acredito... Acredito mesmo... Acredito muito. Acredito... Na capacidade que temos de auto-ajuda, na auto-cura, nem que para isso precisemos fazer algum tipo de tratamento de choque.

(Continua…)

domingo, 20 de dezembro de 2009

O Último Nazista

Bondinho_Rio_1940Era uma noite deslumbrante, uma dessas que somente é possível ver quando estamos inebriados por uma dose de sensibilidade. O céu estava luminoso e os raios da lua refletiam na pele. Numa noite dessas é impossível que o leitor pense que pudesse ocorrer qualquer espécie de brutalidade, mesmo porque este seria o cenário perfeito para o início de um belo romance. Mas o que compartilho convosco não é um romance e nem tem a pretensão de ser. O que conto ao amigo leitor é a história de uma tragédia. E antes de descrever o que os meus olhos puderam presenciar e o que o meu coração pôde sentir nesta noite, tenho o dever de lhes manter a par de como tudo começou.

No ano de 1945 eu estava no escritório de meu pai, que exercia advocacia, quando entrou um senhor com pouco mais de quarenta anos. Recordo-me de ser um dia chuvoso na cidade. Alfred Munsberg era o nome do energúmeno que adentrou encharcado da chuva e perguntou por meu pai. A estúpida secretária apontou-lhe a sala em que ele estava e para onde, em seguida, o sujeito entrou. Ao abrir a porta, ele o chamou pelo nome e atirou. Depois disso saiu como se nada tivesse acontecido. Eu, que brincava com meu carrinho de brinquedo num banco da recepção, presenciei toda a cena e vi o sujeito ir embora do escritório na chuva sem que ninguém fizesse nada. Depois que ele saiu, os funcionários correram para socorrer o meu velho, mas já era tarde.

Há de convir, o amigo leitor, que uma criança que presencia o assassinato do seu próprio pai não há de viver com a mesma normalidade psicológica com que vivem as demais. Mas com o tempo eu aprendi a superar um pouco esse trauma. Embora nunca tenha esquecido o rosto desse homem e nem o do meu pai, dando os últimos suspiros no chão enquanto os seus colegas do escritório, desesperados, tentavam trazê-lo de volta.

Inevitavelmente, depois da morte do patriarca, os negócios da família afundaram. Pois muito embora fôssemos uma família de posses, ninguém tinha a capacidade administrativa que tinha o meu velho. Sendo assim, o escritório foi fechado e, diante de tantas dívidas, pouco tempo depois, fomos obrigados a deixar a nossa casa e a nos mudarmos para outra residência, bem mais modesta, no subúrbio da cidade.

Minha mãe, limitada aos afazeres domésticos, empregou-se numa firma estrangeira, onde fazia serviços gerais. E todos os dias eu lhe levava o almoço. Enquanto ela comia, nós conversávamos, entre outras coisas, sobre a falta que fazia o meu pai. A bem da verdade eu nunca falei sobre o assunto, apenas escutava seu desabafo. Até o dia em que eu lhe disse que queria ser advogado.

O amigo leitor também já deve imaginar a normalidade com que isso acontece, posto que um pai tende a ser o espelho do filho. E assim sendo, meu pai era o meu, até certo grau da minha análise. E continuou a ser o meu espelho mesmo depois de sua morte. Não subestimando a inteligência do nobre leitor, que sei que a esta altura já deve se perguntar por que então mataram o meu pai, já que me foi, até certo ponto um exemplo, esclarecerei o que antecedeu ao seu homicídio. E para explicar-lhe é preciso que voltemos um ano antes, mais precisamente ao dia 30 de junho de 1944:

No auge da Segunda Guerra Mundial, a Força Expedicionária Brasileira, sob o comando do general João Batista Mascarenhas de Moraes, embarcava para Itália, afim de entrar em combate junto a seus aliados. A FEB desembarcaria em Nápoles, no sul Itália. O meu tio, irmão mais novo de meu pai, havia sido convocado pelo exército e estaria no combate. Em dezembro do mesmo ano, nós estávamos em casa e o meu pai lia as notícias e cartas do meu tio com muita euforia enquanto tomava café e fumava o seu charuto. Esse foi um ano de glória em território nacional.

 

A FEB, constituída inicialmente por uma divisão de infantaria, acabou por abranger todas as forças militares Brasileiras que participaram do conflito. Adotou como lema "A cobra está fumando", em alusão ao que se dizia à época que era "mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra". A expedição foi um sucesso. O Brasil e mundo saíram vitoriosos, com exceção de meu pai. O meu tio tinha morrido em combate, no terceiro assalto a Monte Castelo em 12 de dezembro de 1944.

 

 

O seu nome estava na lista dos 457 brasileiro mortos na Guerra.

 

Quando a primeira lista de soldados mortos em Monte Castelo foi divulgada, já não recebíamos notícias do meu tio há algumas semanas. E até então a nossa esperança era de que ele estivesse vivo. À cada lista divulgada, todos olhavam tensos, mas logo depois, respiravam aliviados. Seu nome veio na lista dos mortos no terceiro assalto. E quando o meu pai o leu, chorou engasgado amassando a lista entre as mãos. Depois saiu de casa como que completamente tomado pelo ódio e agrediu a um vizinho alemão, entrando em sua casa e chamando-o de facínora e, entre outras coisa, de Nazista.

Os Munsberg eram uma família antiga no Rio de Janeiro e também tinham seus parentes na guerra, só não sabíamos de qual lado, mas sabíamos que tinham parentes, porque acompanhavam sempre e atentamente a todos os noticiários e recebiam cartas pelos correios remetidas sempre de um endereço Italiano ou Alemão. Meu pai não tinha certeza se eles realmente eram Nazistas ou não, mas afirmava isso como se não lhe restasse dúvida. Eu nunca disse isso ao meu pai nem a ninguém da minha casa, mas sempre, nas madrugas, até  pouco antes do amanhecer, pelas janelas do meu quarto, ouvia-se o hino da Alemanha tocando repetidamente num cômodo dos fundos da casa dos Munsberg. Nesse cômodo dormia Alfred, o filho mais velho da família. Ele cantava e ouvia aquele hino muito baixo, mas o vento conseguia trazer o som para a minha janela. Alfred fazia isso com a luz acesa, e batendo continência para um espelho, sempre fardado e com a bandeira da Alemanha estendida na parede imaculadamente suja de seu quarto. Eu era pequeno e não entendia o que queria dizer aquele ritual. Mas sabia que se fazia de maneira tão escondida, era porque tinha algo errado.

 

Alfred repetia isso todos os dias da mesma maneira e da minha janela eu sempre conseguia ver. Até o dia em que ele percebeu que eu o observava. Nossos olhos se encontraram sem querer na madrugada. Do outro lado do muro que separava nossas casas, ele me olhava de maneira estanha, cética, estática, como se eu pudesse fazê-lo algum mal ou como se ele o pudesse fazer a mim. Sem saber o que fazer, eu o cumprimentei e ele fechou a janela com veemência, apagando em seguida a luz do quarto. Todos achavam que Alfred era doente, pois pouco se comunicava. Mal saía de casa e quase que só era possível vê-lo através das janelas, que raramente eram abertas naquela casa.

Com a morte do meu tio, meu pai havia se tornado um antigermânico. E quando passava na calçada dos Munsberg, cuspia. E fazia isso de maneira clara, para que os Munsberg entendessem que não eram bem vindos na cidade. Um dia, chegou a fazer isso na cara da mãe de Alfred que não fez nada a não ser um pequeno resmungo em alemão, enquanto voltava para dentro de casa. Era evidente que ela não ficava satisfeita com as atitudes de meu pai, mas nunca fez nada mais que resmungar em alemão. Toda semana, em nossa casa, era comum que recebêssemos um convidado que estava direta ou indiretamente envolvido com os conflitos da guerra. Deputados, soldados, jornalistas, políticos, meu pai era um homem influente na época. Chegou a receber o próprio general Mascarenhas, pouco antes do seu embarque para a terra de Nápoles. Mas nuca lhes falou nada sobre a família de Alfred.

Influente e ilustre nome da sociedade carioca, meu pai, apesar de todo o prestígio e respeito, acumulava dívidas homéricas devido ao alto padrão de vida que queria afirmar ter perante os Munsberg e principalmente perante à sociedade.  O meu pai era um bom chefe de família, mas estava descontrolado financeiramente, embora soubesse exatamente como administrar cada centavo que devia e cada um que recebia no escritório. Assim sendo,  as consequências dessa sua necessidade de afirmação social nunca foram sentidas em nossa mesa antes da sua morte.

Em 1945, no salão de nossa casa, estavam todos reunidos em volta do Rádio, esperando um pronunciamento no programa “A Hora do Brasil”. Eu via todos tensos, fumando seus charutos e cigarros, acompanhando a locução de um fato histórico extraordinário.

 

A festa tomou conta da nossa casa e das ruas da cidade. O meu pai, de certa forma, sentiu a morte do seu irmão “vingada” naquele momento. Ele colocou o hino nacional brasileiro às alturas e gritou coisas indecentes aos Munsberg. Bêbado, atirou objetos pelo muro que nos separava. Fez dezenas de ligações e promoveu algumas festas para o povo e de graça. Perturbou nossos vizinhos durante mais de uma semana. Depois disso, ele começou a fazer denúncias sobre os últimos nazistas. Mas a essa altura, todo mundo queria mesmo era a paz. Já suplicávamos para que ele parasse de fazer aquilo, para deixá-los em paz, mas ele não se continha. Continuou a cuspir na calçada dos Munsberg e continuou a insultá-los de todas as formas. A mãe de Alfred respondia em alemão, indignada. Até que, num desses dias, ela faleceu. Vimos seu corpo ser retirado pelos bombeiros. Não obstante, meu pai comemorava sua morte, no meio da rua, gritando com eu euforia carnavalesca que havia morrido a Nazista do bairro. Gritava aos quatro ventos o que queria, enquanto Alfred somente o observava, extremamente calmo.

No dia seguinte, papai levou-me ao seu escritório, cumprimentou a todos com imensa alegria pelo final da guerra e entrou para sua sala. Para ele, haveria só meio expediente. Resolveria uns assuntos burocráticos e depois retornaríamos para casa. Foi quando Alfred chegou ao escritório. A expressão do seu rosto depois de atirar no meu pai  eu nunca pude esquecer, era extremamente fria. Antes de ir embora, atravessando a porta e se banhando na chuva novamente, ele virou-se para mim e olhou-me com os mesmos olhos do dia em que me pegou bisbilhotando que fazia nas madrugadas. Ele parou por um instante assim, debaixo de chuva, e depois seguiu seu caminho sem dizer qualquer palavra. Tempos depois, Alfred foi encontrado morto numa praça da cidade. Alguns dizem que o meu pai foi vingado por um amigo da família. Outros dizem que Alfred foi morto porque era nazista. Eu nunca soube se foi uma coisa ou outra, de fato, mas esse foi mais um dos motivos que me impulsionaram a seguir os caminhos do meu pai e tornar-me um advogado.

A verdade tornou-se uma espécie de obsessão para mim, e eu ficava irritado quando tinha alguma espécie de dúvida. Tanto que quando soube do assassinato de Alfred, fiz questão de ir ao local do homicídio para ver o seu corpo de perto. Eu nunca soube qual era a sua verdade. E nem mesmo quais eram as de meu pai. Quando cheguei ao local, o corpo já estava coberto, mas uma das mãos do cadáver permanecia exposta. Havia um anel entre os dedos e nele eu pude observar o desenho de uma suástica. Pedi para ver o rosto do defunto. E o policial levantou a coberta. Era uma noite deslumbrante, uma dessas que somente é possível ver quando estamos inebriados por uma dose de sensibilidade. O céu estava luminoso e os raios da lua refletiam na pele de Alfred.

 

FIM

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

À Luz de Postes em Noite Escura

 

2517_DSCN2355 Ela falava francês e Je oblié a última vez que vi uma mulher tão linda. Eu estava num bar de botafogo quando ela chegou e, como de costume, estava rodeado de amigos. Ela sentou-se em nossa mesa dizendo “excuse-moi” e dando um sorriso lindo. Eu confesso que sou um tanto quanto impulsivo e dou bandeiras enormes quando me interesso por alguém. E assim sendo, perguntei a um amigo:

-Quem é a francesa?

-Amiga da Paula

A Paula era uma louca desvairada que ficava com homem como pinto fica no lixo. Cisca aqui, cisca lá e no final se alimenta de qualquer coisa que lhe parecer comestível. À essa altura Paula já estava bêbada e de pé apresentou a francesa:

-Gente, gente... Essa aqui é a minha amiga Marie! Uma diva parisiense que aportou em terras brasileiras para conhecer o Rio de Janeiro. E ela... Essa noite... Vai dormir comigo!

Por um momento pensei “será que ela é lésbica?” Mas nada... Paula não tinha nenhum potencial para o lesbianismo. Gostava de homem demais para isso. A francesa sorriu timidamente, provavelmente não compreendendo nada do que dizia Paula. E como era lindo seu nome... “Marie”.

Eu confesso que tenho um interesse por mulheres mais recatadas. Acho as tímidas sempre muito interessantes. Aqueles olhos mirando os outros por baixo foi quase que o arremate para me deixar perdidamente apaixonado por Marie. Logo, alguém levantou-se e eu prontamente ocupei o lugar que ficara vago ao lado dela como quem nada queria. Sorri com uma piada que acabavam de contar, tirei um cigarro do maço, fingi que não tinha isqueiro e disse:

- Vous avez le feu?

- Oui... Oui... Ici!

Ela acendeu meu cigarro enquanto eu lhe fulminava com os olhos. Inevitavelmente ela me retribuiu o olhar e disse:

-Si vous avez besoin à nouveau ...

-Oui, merci! Vous êtes d'une beauté incomparable!

Ela sorriu novamente, sem graça e quase que desguarnecida. Passei assim, quase todo o tempo, reparando nos mínimos detalhes de Marie. Sorria de vez em quando e fingia participar do encontro para a qual eu já perdera completamente o interesse. Quando todos saíram eu levei Paula e a francesa em casa, andamos por alguns pontos turísticos para que ela conhecesse. No portão, beijei seus lábios estranjeiros. Ela me disse que logo regressaria a Paris e que não sabia como nos portaríamos diante disso. Foi quando eu silenciei o seu francês prolixo, preocupado e receoso com a mão e disse que não me importo com o futuro, vivo o presente e nada mais que isso.

Marie desistiu de subir ao apartamento de Paula e logo estávamos andando pela rua como dois perdidos, à luz dos postes, em noite escura, rindo, nos divertindo, sem destino certo na cidade e tentando tapar os buracos da solidão que sei que nos perturbava naquele noite. Ela me disse “Je ne vous oublierai jamais” ao que respondi Oui, un jour vous oublierez de moi.” E embora eu quisesse que ela não me esquecesse nunca, eu sabia que nossos destinos, depois daquela noite, não se cruzariam jamais.

 

Entre As Notas do Piano

Este é um poema meu interpretado pela minha querida colega Portuguesa Zélia Santos. piano  

O Melhor Remédio para a Alma dos “Artistas”

A narrativa que segue, em primeira pessoa, é totalmente fictícia e unicamente de cunho literal. Não tendo nenhum compromisso com a realidade vivida. Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência... E nada além disso.

daniel-garcia-chuvaJá não parava meus olhos em um único lugar. Olhava tudo e nada ao mesmo tempo. Prestava atenção no cigarro acabando de queimar num cinzeiro de improviso enquanto o papo rolava solto e eu me perguntava o que fazia ali. Estava em mais uma dessas reuniões de projetos teatrais onde as pessoas geralmente não sabem ao certo o que querem fazer. Querem mudar, fazer algo “diferente”, mas não sabem como. Aí entram as divagações e toda espécie de propostas idiotas que acabam circundando o nada e terminam sempre na opção mais óbvia e comum.

Artista tem mania de querer ser diferente. Todo mundo que tem algum projeto diz “to com um projeto diferente, uma comédia interessante, um drama absolutamente inovador”. Desses, eu logo duvido, posto que, na maioria das vezes, é tão comum quanto um copo de plástico servindo ao lugar de um cinzeiro de luxo que fôra jogado no lixo. É claro que eu também digo isso, de vez em quando, mas só digo quando tenho certeza que realmente é diferente o que estou propondo.

Mas artista gosta da palavra “inovar”. Eles querem “inovar” a qualquer custo... E acabam virando seres de outro mundo quase, de outro planeta! Isso também é possível notar no modo como se vestem, na maioria das vezes. Principalmente esses mais novos. Tenho a impressão que estão sempre querendo exibir a sua criatividade em público. Querem ser metafóricos inclusive em seu próprio figurino. O que, por vezes, chega a ser ridículo.

No meio da reunião alguém notou o que acontecia comigo e me questionou:

-O que você acha disso?

Odeio quando me perguntam algo desse tipo. Porque não sei se me perguntam na intenção de que eu seja verdadeiro ou simplesmente um agradável massagista de egos. Na maioria das vezes só perguntam mesmo na intenção de que você concorde com o que está sendo proposto, que elogie, que acredite que vai ser implacável, que é genial, imprevisível e nada além disso.

-Do que?

-Da proposta!

-Eu acho um absurdo.

-Como assim absurdo?

-Isso não é inovador!

-Como assim não é inovador?

-É raza, sem propósito, não tem a ver com nada e já fizeram isso.

-Ah isso sim é absurdo. Eu nunca vi fazerem isso no teatro! Você viu? Você viu?

-Gente, para com isso! Pra quê vocês querem ser tão diferentes? Isso não vai dar em nada! O publico vai se perguntar “Que diabos é isso?” e vai pra casa sem entender merda nenhuma! E o pior é que vocês só distorcem o que é simples, fazem uma maionese do obvio e acham que estão fazendo alguma coisa... Mas que coisa? Continua-se fazendo e dizendo o que todo mundo já fez e já disse! Pra que maquilar o simples? Para de alimentar essa breguice!

-Eu não concordo com isso.

-Eu também não...

-Eu também não...

-É claro que não! Vocês não me perguntaram na intenção de que eu fosse sincero. Estou sendo sincero! Não acredito nessa breguice. Acho que o brega consegue ser mais autêntico que o que está sendo proposto. Desculpe por frustrar a todos, mas eu não estou de acordo com isso.

Pronto. O demônio implacável, o “Inimigo do Povo” de Henrick Ibsen estava ali. Eu mesmo, no meu corpo. Eu não gosto daqueles que discordam simplesmente por discordar, porque esses existem também. Mas eu gosto de dizer o que penso. Esse direito eu acho que todo mundo tem e deveria exercitar com maior freqüência, fundamento e autenticidade. Quando vejo um espetáculo que não gosto, eu saio correndo, por vezes. Porque sempre vem aquela velha pergunta no final de tudo: “O que você achou?” E quando eu sei que me perguntam isso para que eu lamba a cara deles, e somente com essa finalidade, eu fujo. Não gosto de ser estraga-prazer, mas acho que nós, artistas, precisamos de críticas sinceras, honestas e construtivas. E para alguns, deveria ser dado somente isso.

Depois disso a reunião tornou-se um fuzuê. E todo mundo me olhava meio torto. Todos falando ao mesmo tempo, com espaços para monólogos, vez ou outra, e eu ali, vendo as teses de defesa em prol da “inovação” nada surpreendente a que se propunham. Depois disso a reunião acabou e ficou decidido aquilo à que estavam dispostos. Voltei pra casa já sabendo que a primeira semana seria de flores, a segunda de tormentos e que, na terceira semana, todo o elenco já estaria disperso.

O ego é como um câncer. Se você não cuida, ele eclode e se alastra tomando inclusive o seu cérebro. Todo mundo quer ser genial, mas genial mesmo é saber que nem sempre se é. Eu voltei para casa na chuva, questionando-me, entre outras coisas, por que cuidar de artistas é tão complicado. Por que as pessoas se deslumbram? Basta um simples elogio ou mera concordância em um tema ou assunto e já se tornam verdadeiros pavões. É obvio que é ótimo ser elogiado. Mas o elogio não te acrescenta nada! Absolutamente nada! A classe artística tem andado de maneira tão superficial e tão pouco autêntica que quando vejo alguém elogiando alguém ou alguém me elogiando, eu me pergunto “será que isso é mesmo autêntico? Está mesmo sendo sincero(a) ao dizer isso?”

Eu não vejo glamour algum na minha profissão. Tenho raiva de quem não tem qualquer espécie de compromisso. Tendo a levar para o pessoal, sempre! Não omito isso! Porque está cheio de gente dizendo que quer, mas isso é uma vasta mentira! Não quer! Eu sei quem não quer ser artista de verdade! A maioria quer o glamour ou qualquer coisa que derive disso. Por fim, esses são os que  acabam atrapalhando a vida dos outros. A gente sente quando alguém realmente é um artista. É visível. Tem gente que falta porque tem dor de cabeça... Eu odeio os que faltam por dor de cabeça! Odeio os que passam mal por qualquer besteirinha, odeio os que chegam atrasados por causa do trânsito, e me odeio quando passo pelo mesmo se me for imprevisível, odeio os que têm compromisso com qualquer outra coisa e odeio os que desistem. Esses geralmente são fracos em todas as questões de suas vidas. Mas é claro que eu não exalo tudo isso assim como exalo aqui, senão me diriam que odeio o mundo. O que, de certo modo, por um ângulo ou outro, não deixa de ser uma verdade. Amo viver, mas odeio o mundo.

A minha sensação é que não sou daqui, sou de outro planeta. O planeta da servidão. Ser servil não está em voga. E acho isso engraçado, porque a vida do artista, por exemplo, é de completa servidão, nada mais que isso. Sirvo minha vida para que você analise a sua. Sirvo meu corpo para que o meu corpo se utilize da vida sua e para que a vida sua também me transforme, afim de que eu possa compreender seu universo de maneira melhor e possa trazê-lo à tona em qualquer ocasião que for preciso para mim mesmo ou para qualquer um.

Adoro andar numa contramão, mas ela tem que ser autêntica. Eu insisto em desobrigar-me de andar por este caminho que sigo. Já repeti milhões de vezes que não quero... Não quero mais ser artista, mas acabo sendo justamente isso. E este foi o diálogo que tive comigo na chuva:

-Larga essa porcaria! Você não precisa participar desse ciclo. Pega teu diploma de contabilidade e vai fazer contas! Deixa de ser tão complicado, prolixo, analítico, emotivo, humano! Para com isso! Vai fazer outra coisa da vida. Vira máquina, vira? Deixa esse teu lado sentimental, sensitivo, deixa tudo isso. Viva como a maioria das pessoas... Seja normal, seja realista. Ninguém está interessado em criação genuína, pouco se lixam pra talento, ninguém na verdade entende disso. Todo mundo entende o glamour, o chique, o atraente, o que vai de encontro aos seus sonhos materialistas. Desiste disso! Larga essa porcaria! Essa imundície egocêntrica, esse poço sem fundo, essa cretinice absurda, larga isso, larga!

Mas é obvio que todo já sabe o que aconteceu quando cheguei em casa! Tomei um banho, livrei-me das roupas molhadas de chuva, preparei um café, acendi um bom cubano e abri um livro. Num bom livro as coisas também não são tão fáceis. Tudo até parece ser real e genuíno. E sempre, ao final deste, ou de um belo filme emocionante, emocionado eu repito: “Eu não consigo! Eu não consigo!”

De uma coisa estou cada vez mais certo: Nem tudo que se pensa deve ser dito. Senão você morrerá de sincericídio. Você deve ser verdadeiro, o máximo possível, mas cuidado com os campos dos egos elísios. Quando inflamados, eles são como explosivos. Destroem tudo que há em volta. Se optar por ser sincero, seja sempre e com muita delicadeza, mas se optar por se mascarar e tapar os buracos que não são vistos, o melhor é utilizar-se das velhas análises subjetivas. Elas costumam ser o melhor remédio para a alma dos “artistas”.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O Drama Encena / El Drama Puesto en Escena

 (“Eu” Espectador ou “Eu” Ator. / “Yo” Espectador o “Yo” Actor)

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Luz

E eu ali

Olhando nos olhos

Tão longe e tão perto de mim

Luz

E eu segurando de mim

O que de mim não era

Mas me tomava por fim

Luz pra ti

E Luz pra mim

Silêncio verborrágico

E consciência alternada

De mim e do outro

Do todo

E de cada um

De nós

Nós

Entre eu e você

Mesmo não estando no entre

Nós

Luz

Palavras e olhos

Na respiração do corpo

Da fala

Dos gestos

Da música

Da luz

Do entre

Da alma

De contras e prós

Luz

E luz com música de fim

Na saída da cena

Blackout neles

Mas luz

Em nós.

Luz

Y yo allí

Mirando a los ojos

Tan lejos y tan a cerca de mí

Luz

Y yo sustentando en mí

Lo que de mi no era

Pero me tomava por fin

Luz para ti

Y luz para mí

Silencio verborragico

Y conciencia alternada

De mi  y del otro

Del todo

Y de cada uno

De nosotros

Nosotros

Entre tú y yo

Aunque no estando en lo entre

Nosotros

Luz

Palabras y  ojos

En la respiración del cuerpo

Del discurso

De los Gestos

De la canción

De la luz

Del entre

Del alma

De contras y pros

Luz

Y luz con música de fin

En la salida de escena

Blackout en ellos

Pero luz

En nosotros.

 

domingo, 13 de dezembro de 2009

Por Razões Sentimentais (Ele)

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Subiu as escadas do metrô completamente fora de si. Caminhou pela cidade e nada viu. Subiu a escadaria do seu prédio, abriu a porta do apartamento, entrou e deu de cara com a sala. Ela estava ali, de pé, com um bouquet nas mãos e vestida de flores.

Sentou na poltrona, acendeu um cigarro, tragou-o profundamente, olhou para ela, passou a mão sobre seus próprios cabelos, olhou para o chão e criou coragem para dizer tudo o que queria ter-lhe dito antes:

- Quando nos casamos, eu entendi que era para sempre, mas sempre é tempo demais para quem vive. Eu nunca entendi o que se passava aí dentro de você. E você... Jamais pôde compreender o que se passou aqui dentro de mim. Nunca me viu sorrir, nunca me viu chorar, mas isto não implica dizer que nunca tive nada dentro de mim. Eu apenas não me animo com coisas fúteis e nem me abalo com coisas simples demais. Poderia chorar por você não estar aqui. Mas chorar por que se, na verdade, você sempre vai estar? Você talvez tenha passado por essa vida como uma vagabunda que passa pela rua esperando o primeiro para quem possa dar. Mas dar o que? O seu corpo? Esse que não é mais seu e que agora apodrece aí parado? Você nunca teve nada para dar. E poderia ter me poupado desses dias. Eu ando pelas ruas e agora já não sinto mais o chão sobre meus pés. Eu ando pelas ruas e só vejo as lembranças dos dias que vivemos relativamente felizes dentro deste apartamento. Não reparo as lojas, as pessoas, os carros, os ônibus, as árvores e nem mesmo se o céu está nublado ou se está limpo. Acho um saco ter que te dizer isso, mas eu não amava mais você. O amor que eu sentia sucumbiu ao passar dos dias. Estava morto, assim mesmo como você está agora. Eu nunca entendi quando você dizia que eu era complexo. “Complexo demais para o seu gosto!” Mas agora eu entendo. Eu sou mesmo complexo para muita gente. Por que complexo é tudo aquilo que a gente não domina, que a gente não entende. Eu gostaria de pintar o seu retrato sobre seu túmulo. Para que você não se tornasse apenas mais uma no cemitério sendo devorada pelos vermes. Ontem eu retirei todas as suas roupas do armário. Suas jóias, seus vestidos e encontrei uma caixa com escritos. Eu guardei esta carta escrita com a sua letra para o Carlos:

“Querido Carlos;

Fiquei muito feliz de ter te reencontrado. É uma pena que eu esteja casada com o traste do Leonardo. Creio que tenha confundido realização sexual com amor, na verdade. Mas amor mesmo eu sempre tive por você. E hoje eu tenho certeza disso, de verdade! Vi nos seus olhos que ainda sentes algo por mim, apesar de também já ter casado. E é exatamente por isso que te escrevo esta carta. Estou disposta a largar o Leonardo e fugir para qualquer parte do mundo, desde que você esteja ao meu lado.

Peço que não sintas medo em admitir que também não ama a sua esposa, que ainda resta um pouco daquele amor que você sentia por mim, pois, em mim, amor por ti, também há. Procuro ocultar isto em meu relacionamento por enquanto e imagino que também deves fazer o mesmo no teu com a tua esposa. Trato o Leonardo da melhor maneira possível para que ele não perceba nada de diferente em mim, pois desde que te reencontrei, senti que tudo dentro de mim ficou revirado. Você precisa entender que equívocos acontecem e casar-me com ele foi o pior de todos os equívocos que cometi na vida. Tudo que sentia por ele, desfez-se como pó entre os dedos. Nossa relação sexual é, para mim, hoje, apenas como cumprir uma obrigação e imagino que isto é exatamente o que deves sentir também com a tua esposa. 

Eu já não tenho desejo, interesse, nem sinto qualquer tipo de prazer na companhia do meu marido. Interessa-me muito viver de outro modo. Com alguém por quem eu tenha, pelo menos, um segundo de prazer, felicidade e de muitas outras alegrias, quem sabe! Tento, em breve, estar com uma nova vida e, se permitires, construirei nova vida ao seu lado. Vou te esperar amanhã no Café Colonial. Se quiseres, posso repetir tudo que digo nesta carta. Posso falar de todo amor que ainda tenho por ti olhando em seus olhos.

Aguardo sua resposta confirmando o nosso encontro para, quem sabe, planejarmos nosso futuro.

Beijos eternos.
Sempre sua...
Glória!”

Eu jamais poderia imaginar que você me tinha tanto apreço! Tanto que até desconheço essa Glória cheia de vida. Morrer era mesmo o melhor para você, sua vadia! O melhor para acabar com essa palhaçada! Tudo bem, nós não tínhamos diálogo. Nunca tivemos! Ou éramos mudos ou éramos berros. Mas nunca desconfiei que houvesse ainda alguma coisa entre você e o Carlos. Se desconfiasse disso antes... É inútil que você morra e me deixe aqui com tantas questões... Com tantos calos vivos... É inútil você querer que eu pense sobre isso que diz na carta e sobre outras coisas também. Eu nunca refleti muito sobre nada. Nunca fiz muitas questões. Você foi, para mim, como uma droga que apenas me tirou do meu estado normal por alguns instantes. Eu olho para você e só consigo me lembrar do quanto que o mundo é fútil e egocêntrico: Seus vestidos, suas jóias, seu carro, sua casa, seu marido, seu sexo, seu amor, sua felicidade, nada mais que isto! E agora que morreu o que você quer? Ser aplaudida? Eu aplaudo! Brava! Brava a sua corrida! Pena que ela só te levou à caminho da cova. E o que você deixou aqui? O que você deixou?

Eu não chorei quando te vi jogada na banheira. Não chorei quando te vi ensanguentada. A água vermelha era até engraçada. Eu não chorei e não choraria por nada! Você estava exatamente como qualquer um pode estar algum dia. Vai para onde todos vão em algum momento. E se você decidisse voltar agora, eu  mesmo te levaria de volta. Pelo simples motivo de que você viveu como uma morta. Sinto que este talvez seja o único momento em que você me escutou nessa vida.

Eu lamento que no seu velório não haja convidados, não haja lágrimas ou sequer um tradicional cafezinho. Lamento que eu seja o único a te aplaudir. Eu sei que em algum momento você deve ter desejado a minha morte. Quando te tranquei em casa e não deixei você sair bêbada e nua pela rua, quando você gritou e eu sequer quis te ouvir, quando nosso filho partiu e eu não disse nada… Você sempre foi uma grande estúpida. Nunca entendeu absolutamente nada, embora fingisse entender de qualquer assunto. Você sempre foi com a multidão e isso não lhe rendeu absolutamente nada. Você sequer tinha uma opinião! Apenas repetia como um disco arranhado o que os outros diziam ser verdade. Mas onde esteve a sua verdade? Não desenvolveu seu lado questionante? A sua verdade era exatamente esta: Você não morreu, já estava morta! Escondeu-se da sua própria verdade. E é exatamente isto que vou repetir para a polícia: Ela havia se escondido e já estava morta! Esfaqueou-se a vida inteira. Já estava morta... Já estava morta!

Hoje, mandei retirar todos móveis desse apartamento. Doei tudo aos pobres. A quem acha que precisa de uma geladeira para ser feliz, de um carro para se locomover, de uma cama para dormir tranquilamente, de uma TV para se informar, de um sofá para relaxar. Eu só pedi para deixarem mesmo essa poltrona em que estou sentado, pois é aqui que vou sentar-me para conversar com você, todos os dias da minha vida, até que estes se acabem.

Daqui a duas horas virá um rabecão para te buscar. Eu não quero mais sentir o seu cheiro podre nesse casa. Cansei. Estou sentindo esse cheiro desde o momento em que vi seus pulsos cortados na banheira. Por que você resolveu se matar? Você não teve a hombridade de me dizer que nunca sentiu nada por mim... Que não sentia mais prazer no sexo... Que me odiou a vida inteira! Logo eu, que te dei tanta liberdade! Não ficaria incomodado se você me dissesse do Carlos... Nunca fui o teu dono. Nunca fui dono de nada nesse mundo. Houve, entre nós, apenas um encontro, nada mais que isso. Eu precisava da sua companhia e você da minha... Eu tentava te dar... Mas você renegava a tudo isso! Simplesmente por pensar somente em si. Você foi tão egocêntrica que sequer se despediu. Sequer disse que não queria mais viver como antes. Sequer deixou-me dizer o que penso sobre a morte. Eu simplesmente cheguei, te encontrei na banheira, e vi-me só. Imensamente vazio.

Essa sua forma pouco criativa de dizer “não” à vida demonstra somente o quão ignorante você era. Praticamente uma iletrada na escola da vida! Essas paredes, nosso quarto, essa sala, agora jorram sangue e lágrimas desperdiçadas e sem qualquer necessidade. Não vou mudar-me daqui. Vou chamar uma vagabunda diferente a cada semana e fazer amor com elas... Fazer amor... Sim, com vagabundas... Em cada canto deste apartamento! Para não me sentir sozinho. Vou dar a elas o que tentei te dar em vida e você não quis. O amor é igual para todos, independente de quem o dá e de quem o recebe. O amor que você procurou no Carlos sempre esteve em mim... Sempre esteve aqui, nesse lugar. Você é que não quis cultivar. Eu não ia fazer isso, pois você não merece, mas vou colocar aquela música que você gostava, lembra? Ainda restaram nossos discos e a vitrola:

Gostaria de ter dançado com você esta ultima música. Posso levantá-la daí? Tirá-la do meio dessas flores para um baile? (abraçando-a) Eu amaria tê-la de volta novamente. (a campainha toca) Amaria ver o seu sorriso ainda que nos braços de outro homem, mas você quis assim! Disse esse imenso “não”... Por quê? Não podia ter suportado nem um pouco mais de si, da vida, dos problemas, do mundo? (campainha toca novamente) Chegaram os seus súditos, vão levá-la como levavam as rainhas antigamente: Em seus braços. E a terra te abraçará pela ultima vez e te dará o beijo suave do repouso incansável, enquanto eu ficarei aqui exatamente no mesmo lugar. (campainha novamente) Preciso abrir a porta... 

- Senhor Leonardo?
- Sim, sou eu mesmo!
- Nós somos da agência funerária...
- Eu sei... Vieram buscá-la! Podem entrar. Esperem... Uma rainha não pode ser enterrada sem os seus pertences! Tomem: São suas jóias, seu ouro! Foi a única coisa que ela deixou mesmo em vida! Por favor, peço para que seguramente façam com que, com as jóias, ela seja enterrada. Eu pago o que for preciso.
- Mas senhor...
- Não... Eu pago por isso... Eu pago!
- Está bem, ela será enterrada com suas jóias! Com licença...
- Muito obrigado! Adeus, rainha louca! Adeus sua vadia, miserável desmiolada! Vá para o diabo que te carregue! Vê se não desiste agora de ser enterrada! Amanhã esteja aqui para conversarmos! Será um prazer dizer o quanto você me fez mal. O quanto você é desgraçada! Adeus... Adeus... Rainha das trevas... Até breve! Até breve!

Por Razões Sentimentais (Ela)

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Chegou bestialmente linda, andou pela casa, pegou uma garrafa e serviu-se de whisky. Olhou para ele com um ar de irônica, caminhou até a poltrona e disse:

-Você deveria permanecer sempre assim: Intacto. Congelado como um boneco de neve ou como manequim pelado. Quando te conheci você era tão simples que eu até cheguei a acreditar em amor de verdade.

Mas aí as coisas vão mudando, os dias vão passando... E a gente começa a notar só o que tem de errado. Eu tentei te entender! Tentei apreciar você, tentei ver o que você queria me dizer com todo esse seu charme, mesmo quando fica furioso. Eu nunca agradei a você, eu sei disso, e nunca sequer me amei por tanto tempo te amar.

Quando nós ainda tínhamos alguma espécie de diálogo; quando nos dispúnhamos a nos escutarmos, as coisas eram mais simples. Acontece que as coisas mudam o tempo todo nessa vida. Eu não sei como que, num casamento, você nunca conseguiu me pedir desculpas, mesmo quando sabia que você era quem estava errado. Pedir desculpas não mata! Enobrece a alma. Eu acho lindo pedir desculpas! Acho a forma mais simples de reconhecer que algo que se fez está errado. Desculpa! Eu tenho horror quando você sabe que cometeu um equívoco e não me pede desculpas. Eu tenho horror quando você sabe que está errado e continua assim, emburrado!

Mas tudo bem, eu já nem me importo mais com isso. Ao contrário, eu até ignoro. Por que por mais que você queira aparecer para os seus amigos e para os demais, eu sei que, por dentro, você mesmo se destrói. Por não querer enfrentar sua dura e cruel realidade. Acho engraçado como você está sempre querendo agradar aos outros, ao seu público! Tal qual estivesse num teatro! Sabes que acho bonito o ser humano nu? E não só fisicamente! Gosto do ser humano despido até de sua própria alma! Não vou dizer aqui agora que não gosto dessas coisas que todo mundo gosta. Eu gosto de tudo que todo mundo gosta. Seria hipocrisia da minha parte dizer que não.

Eu queria ter você assim: Sempre parado, calado, imóvel, escutando-me novamente. Sem essa sua expressão diabólica, é claro! Irrita-te que eu te diga a verdade? Pois muito bem: Eu não amo mais você! Você foi para mim, como um pequeno parque de diversões. Uma roda gigante! Mas eu enjoei de rodar! E pulei do seu ponto mais alto! Sabe como é engraçado fingir para você? Você sempre acredita! Aliás, você acredita em tudo. Eu finjo que te amo; finjo que te quero; finjo que não te acho absurdo! E você acredita em tudo!

Quando a gente deixa de amar uma pessoa, não por causa de outra, mas simplesmente por que deixou de amar, a gente, na verdade, não acredita mais no amor. A gente passa a acreditar que ele não existe. Um casamento é exatamente isso: Acreditar para sempre ou simplesmente desacreditar, ainda que aos poucos. Alguns, como eu, fingem que ainda acreditam para levar o resto dos dias. Mas, como toda grande encenação, isso também há, algum dia, de acabar.

É impressionante como antes eu até achava bonito encontrar seus sapatos jogados pela sala... Eu os apanhava com carinho e colocava-os novamente em seu devido lugar. Hoje, os seus sapatos na sala me irritam! Profundamente! Sinto-me agredida em ter que apanhar seus sapatos jogados na sala, sua toalha molhada sobre a cama, sua cueca suja pendurada no banheiro.

Eu andei pensando, em algum momento, açoitá-lo. Sim, em açoitá-lo! Até que sangrasse bastante apenas para que me pedisse perdão ao final de cada chicotada. Mas eu preferi que você mesmo se açoitasse. Sim, é bem melhor que você mesmo se açoite e se entregue!

Sabe... Quando eu ando pelas ruas, eu procuro olhar as vitrines, observar os carros e apartamentos de luxo e me ver dentro deles. Longe desse aqui. Longe desse ar insuportável. Eu adoro sair na rua. Encontrar pessoas sabe? Se você não estivesse assim tão catatônico, perceberia que há algo diferente em mim. Mas você não percebe. Vai ver isso é coisa de homem pouco romântico!  Você sabe como é difícil fazer uma maquilagem diferente, dar um jeito no cabelo, passar um perfume novo e sequer ser notada? Sabe como é difícil isso para uma mulher? Gastar horas diante de um espelho para nada? Você chega em casa com um porco, meu querido: Senta, come, bebe, deita, peida, rola e dorme! Raramente entra, nessa sequência, o “trepa”! Mas, quando entra, logo em seguida, você peida, rola e dorme! Você espera que alguma espécie de amor resista a isso?

Ontem eu mexi nas suas coisas e, sem querer, senti na sua blusa um perfume de mulher. E não era o meu, é claro... Jamais usaria um perfume tão forte, tão barato. Você não merece que eu te faça isso: Mas eu vou acender seu cigarro e vou preparar uma dose de whisky para você também... O que mais eu posso te fazer? O que mais você quer de mim? Quer que eu tire os seus sapatos? Que lhe entregue sua cerveja? E uns quitutes? Chamar uns amigos? Quem sabe... Deixe-me ver o que mais posso fazer... Ah, é claro! Colocar aquele seu velho disco:

Até te daria o prazer de uma dança. Até poderia me despedir de você, se não estivesse tão ocupado com o que estás fazendo... Mas, enfim, creio que seja exatamente esta a vida que você quer. Eu vou tomar um café, mas não sei se devo voltar. Muitas pessoas desaparecem quando vão a alguns lugares... Você já deve ter ouvido aquela velha história: “Foi comprar cigarros e não voltou nunca mais!” Bem, eu só estou indo tomar um café... Não se importe em jogar seus sapatos. Pode jogar! Se eu não estiver aqui para apanhá-los, certamente alguém, algum dia, os apanhará! (pegou a bolsa e abriu a porta) Adeus, seu boêmio desgraçado! Eu espero que você apodreça no seu próprio inferno! Sozinho ou, quem sabe, com outra mulher!

E saiu enquanto o disco tocou para ele que permanecia imóvel e com a mesma expressão no olhar.

Zumbis


É desse ser
Que nasce aqui outra vez
Desse mundo que gira apressado
Dessa falta de ética que caminha de lado
Dessa fé cética que não deixa legado
Desse grito cortante que passeia de carro
Desse chá enervante que tomo calado
Dessa desnatureza
E com certeza
Desse ruir
Sem motivo, sem libido, nem trocado
Que nasce um Zumbi.
E é desse ser
Que surge na violência discreta
Que corre atrás de uma meta
Que obedece aos caprichos do mundo
Que tem obrigação de vencer
Que não se importa mais com o ser
Que não sabe o sentido de viver
Que abre um livro, mas não lê
Que observa as artes, mas não vê
Que late, bate e pede para crer
Desse ser que não é ser
Que nasce a violência no mundo outra vez.
E é dessa violência que nasce e cresce
E que dispara fúria pelo cano de seu revólver
Que cospe pólvora, fogo e bala
Que atravessa a cidade com ar de indignidade
Que planta ódio e semeia a infelicidade
Que julga, grita, cheira e mata
Que arrebata e arrebata e arrebata
Que nasce outro ser com ódio
Nesse mundo outra vez.
Pronto para criar outros Zumbis!
Zumbis são vis!
Os Zumbis nascem de nós!
Os Zumbis são o giz
Desse mundo que amarramos sem dó
Com um nó
Bem na ponta do nosso nariz!


*Um zumbi, também grafado como zombi e zombie (em francês, no Haiti) é tradicionalmente um morto-vivo que foi associado erroneamente ao Vudu, crença espiritual do Caribe. O conceito do zumbi serve também como referência à servidão ou desgaste físico e doença.
Esta criatura é um ser humano dado como morto que, segundo a crença popular, foi posteriormente desenterrado e reanimado por meios desconhecidos. Devido à ausência de oxigênio na tumba, os mortos vivos seriam reanimados com morte cerebral e permaneceriam em estado catatônico, criando insegurança e medo nos vivos. Como exemplo desses meios, pode-se citar um ritual necromântico, realizado com o intuito maligno de servidão ao seu invocador.
A figura dos zumbis ganhou destaque num gênero de filme de terror no qual essas criaturas manifestam apetite pela carne humana (canibalismo). Nesse caso, o termo morto-vivo (do inglês living-dead), é muito usado.

sábado, 12 de dezembro de 2009

E a arte nos levanta pela mão

Gracias Eva por la tuya inspiración!
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Rosas no Jardim

Aconchego-te em meus braços.
Te chamo querida...
Amiga!
Amiga!
Tão rubra é tua face...
Tão longos são teus dedos...
Como são os de um artista.
Mas artista é quem te fez assim
Tão bonita!
Querida!
Querida!
De macios cabelos
E de olhos tão claros.
De pele branca como o leite...
Teu pai foi Picasso!
Na casa já não tão florida,
E de jardim ressecado,
És a única rosa
Cujo caule não foi cortado.
Floresceste querida!
Concebeste duas líricas rosas
Que geraram mais rosas...
Que de nosso jardim tratou o mundo
De ter coletado.
Hoje somente tu continuas ao meu lado.
Enquanto as rosas que destes enfeitam as casas...
Querida!
Amiga!
Só porque estás no mundo
Este é o nosso jardim!

O Meu Silêncio – Noites Absurdas

152211

O meu silêncio é um conjunto de facas cravadas num animal.

Vermelho intenso sangra a pele do mortal.

E a falta do verbo é punhalada dada ao pensamento

Que não o trará certezas de nada na realidade insana do momento.

Muquiranamente não penso. Mas o meu silêncio não me faz cadáver.

Abro as portas para que o vento varra de mim a poeira de maus sentimentos,

Pois minha alma é terra esperançosa

De solo rachado pelo sol quente do meu nordeste em quase dezembro

Que, portanto, também tem sede de água e não só de vento.

Minha vida é relógio que já contou sucessos, assombros e tormentos

De um céu em que já houve estrelas e que ainda haverá, contemplo.

Contudo, agora, eu conto as horas do futuro

Como viúva tecendo as vestes com que a virgem irá para o leito.

Todas as minhas noites me são absurdas.

Todas as minhas horas me são indústria.

E não paro.

Não paro...

No entanto, não me cansa esse meu estranho modo de viver

Como equilibrista em cima do muro, pisando em tijolos que desaparecem no abismo debaixo de mim.

E em sendo artista, é justamente nesse abismo que sei que hei de sucumbir.

Vivo como nos tempos do império... Como nas batalhas...

Mas, em meu palácio de sonhos

Não há tronos, nem reis, rainhas, coroas ou guardas.

Há apenas a plebe e uma luz no tablado.

Onde encontro a minha razão de viver.

Há coisas lindas e tenebrosas quando entrega-se a alma a isto.

E, apesar da certeza, o meu silêncio é o enorme e escandaloso abismo.

É mesmo preciso destruir dos homens todas as pontes.

Só para que entendam, antes de mais nada, a sensação do cair!

Só então assim é que se pode abrir a porta

Com a sensação de que algo melhor está por vir...

Mas, antes disso, terão de viver com o barulho do motor de um carro acelerando na garagem em ponto-morto! 

Até que a vida lhe ponha a primeira marcha para partir.

Preciso continuar jogando tinta branca na paisagem do quadro que me disseram que estava pronto!

Os meus riscos são grosseiros, mas é com eles que preciso contornar a sensasão de abandono.

Hoje já nascem mais flores que as que plantei um dia em meu jardim.

Daí a certeza lógica de colheita farta no fim!

Só o que me mata é a noção de tempo,

Posto que as minhas rosas não florescem na batida do relógio,

Mas na balada do vento.

Por isso eu vivo soprando com tanta intensidade!

Por isso as noites me parecem absurdas! Nelas, até parece que não há vento.

Há coisas no meu quadro que são tão rubras que prefiro transformá-las em linhas curvas.

E é assim que consigo criar os meus próprios desvios...

É neles que eu gero a consciência dessa minha consciência de que nem sempre é preciso dormir.

Às vezes é preciso ficar acordado para não ter excesso de tempo.

Que só nos enchem de tédio como o ópio

De um ócio vergonhoso e em quase nada criativo.

Outra Vez

273060

Outra Vez

Não há, no mundo, quem me conheça melhor
Que o silêncio!
E se pretendes mesmo descobrir quem sou
Pergunte ao mudo;
Apague a luz;
E não me olhes,
Não julgues o que sou pelo que faço ou pelo que vês.
Pois muito do que fui ontem, já não sou;
E serei quase nada de mim amanhã
Outra vez.

 

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MUERTE SÚBITA / MORTE SÚBITA

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MUERTE SÚBITA

Morro al escribir para usted

Y morro tanto, incluso sin veerte

Que moriendo de amor dejo mi cuerpo amarte sin quererte

Morro a cada día

Morro con su alegría

Morro con su agonía

Morro con la incertidumbre de nuestro futuro

Usted me mata tanto y tantas vezes

Que ya no sé sequer como es vivir

Si vivindo por amarte

Acabo moriendo en usted

Morro muy Y morro sin creerte

Morro querendo dicirte

Que todo lo que me hace morir por amarte

Es lo que cres que me hará merecerte.

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MORTE SÚBITA

Morro ao escrever-te

E morro tanto, mesmo sem ver-te

Que morrendo deixo meu corpo te amar sem querer-te

Morro a cada dia

Morro com a sua alegria

Morro com a sua agonia

Morro com a incerteza do nosso amanhã

Tu me matas tanto e tantas vezes

Que já nem sei como é viver

Se vivendo por te amar

Acabo morrendo em você

Morro muito

E morro sem crer-te

Morro querendo dizer-te

Que tudo que me faz morrer por te amar

É o que pensas que me fará merecer-te.

Sombra / Sombra

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SOMBRA

Mi sombra invade su cuarto
Caminha
Y tira los zapatos
Liberase de las sombras de las ropas y se desnuda
Mi sombra es mi caminar por la casa
En la medida en que el sol se apaga
Mi sombra es tuya
Mi sombra soy yo plenamente
Aunque no sea yo realmente
Mi sombra es pura!
Mi sombra son las cosas que creo
Mi sombra son las cosas que siento
Es la conversación que tengo conmigo junto a la oreja
Mi sombra no es sucia
Mi sombra es todo lo que se puede ver
Mi sombra soy yo y todo lo que está en mi ser
Es mi cuerpo descobriendo su cuerpo
Es usted arrugando la almohada
Es la unión de mi sombra con la tuya
En la luz que las hace crecer en la pared
Transformandolas solamente en una.

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SOMBRA

Minha sombra invade o teu quarto
Caminha
E tira os sapatos
Larga-se das sombras de vestes e fica nua
Minha sombra sou eu caminhando pela casa
À medida que a luz do sol se apaga
Minha sombra é tua
Minha sombra sou eu por inteiro
Mesmo não sendo o eu verdadeiro
Minha sombra é pura!
Minha sombra são as coisas que penso
Minha sombra são as coisas que sinto
É a conversa que tenho comigo ao pé do ouvido
Minha Sombra não é suja
Minha sombra é tudo aquilo que se pode ver
Minha sombra sou eu e tudo que há em meu ser
É meu corpo descobrindo teu corpo
É você amassando o travesseiro
É a união da minha sombra com a sua
À luz que as faz crescer na parede
Tranformando-se em apenas uma.

Technorati Marcas: Sombra,Poema,Oscar Calixto,Jogo de Sombra,Poesia,Português,Espanhol

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Hablando de mi Adicción / Falando do meu Vício

Hablando de mi Adicción
Decir a usted todo lo que deseo
Es tarea difícil,
Dado que no hay palabras para justificar mi adicción.
Y esta mi adicción no es algo pequeño,
Es una enfermedad grave, con lo que a veces me veneno.
Es una llama que arde;
Quema sin miedo, sin lástima o vergüenza.
Mi adicción me hace alucinado,
A veces tranquilo y tan calmo,
Que sólo escucho la voz que sale de mí de mí.
En mi mundo sólo hay un color:
Lo de las preguntas sin respuestas plenas.
Y no hay medicina que la cure,
Porque no hay quin la investiga.
Alucinome en la luz de todos los ojos
Y ellos me llevan a tierras tan diferentes,
Que yo nunca voy piensar en encontrarme novamente.
Debido a que mi adicción está en el color de sus ojos, de su pelo,
En el aroma que tiene su olor,
Y en el suave toque de sus labios y dedos .
Pero si quieres mismo la verdad,
Que entonces sea dija:
Mi adicción casi prescribe el obituario
De este cuerpo que sólo usted habita.

Falando do meu Vício
Dizer-te tudo que quero
É tarefa difícil,
Visto que não existem palavras que justifiquem o meu vício.
E esse meu vício não é coisa pequena,
É doença grave, que por vezes envenena.
É uma chama que arde;
Queima sem medo, sem dó, nem pena.
O meu vício me deixa alucinado,
Por vezes quieto e tão caldo,
Que só escuto a voz que vem de mim para mim.
Em meu mundo há só uma cor:
A das perguntas sem respostas plenas
E não há remédio para curá-lo,
Posto que ninguém o investiga.
Alucino-me à luz de todos os olhos
E eles me levam a terras tão estranhas,
Que jamais pensarei em encontrar-me novamente.
O meu vício está na cor dos teus olhos, em teus cabelos,
No aroma que tem o teu cheiro,
E no toque suave dos teus dedos e lábios.
Mas se queres a verdade,
Que seja então ela dita:
O meu vício quase prescreve o obituário
Desse corpo que só você habita.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

SER BREGA É CHIQUE!

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No íntimo, somos bregas.

Porque brega é a verdade da alma

Que não precisa de máscaras e que não se disfarça, nem faz de conta,

Mas simplesmente é aquilo que é.

Brega é o espontâneo,

A máxima das frases ditas com exagero

E de todas as músicas tocadas e cantadas como melancolicamente vividas.

Brega é tudo que fala de amor, de dor, e que quase sempre rima com isso.

Ser brega é ser verdadeiramente claro em sua natureza,

Por isso o brega é tão chique.

Porque não tem limites,

Porque não se reprime.

Brega é tudo aquilo que é incontrolável

E que é obviamente comparável.

Ser brega é dizer o que todo mundo já sabe e já disse.

O brega não se importa com nada

E, nisso, ser brega, é mais bonito que ser chique.

Brega são as cores claramente visíveis

E o chique, os tons deriváveis dessa breguice.

Levo a vida como um brega, e é exatamente por isso que sou chique

Andando de bar em bar, cantando em botequins,

Rindo e falando alto, chorando na frente dos outros,

Fazendo escarcéu,

Como se vivesse num bordel

E como um culto à indispensável pieguice.

Tolo é quem despreza o brega. Pois ali é que está a verdade de uma essência.

E que me desculpem aqueles que são mais comedidos, mas, ser brega, é muito chique!

Ao som de “Eu vou tiraaaaaaaar você desse lugar...
Eu vou levar você pra ficar comigo
e não me interessa o que os outros vão pensar!”

Odair José