(Arlet está numa calçada parada e com uma rosa nas mãos. Mexe e cheira a rosa delicadamente. Santos entra. Arlet olha para ele. Ficam nisso durante um tempo.)
SANTOS
O quê que foi?
ARLET
O que?
SANTOS
Eu tô perguntando o quê que foi!!!
ARLET
O quê que foi o que?
SANTOS
Que você tá aí me olhando!
ARLET
Ué, eu não posso olhar pra você?
SANTOS
Não.
ARLET
Agoooora... A rua é pública, meu filho, olho para quem eu quiser!
SANTOS
Não, pra mim você não pode olhar.
ARLET
Por que? Cai pedaço?
SANTOS
Não, não cai, mas eu não quero que você olhe pra mim...
ARLET
Tá bom... Parei...
SANTOS
Parou o que?
ARLET
De olhar pra você!
SANTOS
E por que?
ARLET
Por quê o que?
SANTOS
Que você parou de olhar pra mim!
ARLET
Porque você não quer que olhe! Não foi isso que você me pediu?
SANTOS
Não, eu não te pedi nada.
ARLET
Agora pronto! Quê que foi, cara? Você bebeu?
SANTOS
Quem eu?
ARLET
Não, minha avó... É claro que é você! Tem mais alguém nesse lugar?
SANTOS
Tem! Tem uma velha gorda comendo doce ali na esquina, um trombadinha do outro lado, um monte de gente rica passando de carro e, naquele prédio, uma mulher tocando siririca no segundo andar... Tô vendo daqui! Tá louquinha. Se colocassem o dedo dela num piano, ela tocaria Schoppin!
ARLET
Você observa tudo, heim rapaz!
SANTOS
Quem eu?
ARLET
Não, minha neta!
SANTOS
O quê que foi?
ARLET
Quê que foi o quê?
SANTOS
Quê que foi?
ARLET
Ai, meu Deus, você é maluco, cara?
SANTOS
Quem eu? Ah não, sua filha! Sua filha é que é louca!
ARLET
Eu não tenho filha!
SANTOS
Mas vai ter, você tá grávida!
ARLET
Puta que pariu, insano desgraçado, para de me rogar praga, seu peste!
SANTOS
Praga? Você acha que filho é praga?
ARLET
Não. Não acho, mas eu não quero ficar grávida nesse momento...
SANTOS
E em qual momento você gostaria de ficar grávida?
ARLET
Num momento mais propício!
SANTOS
Mas todo momento é propício para gravidez... Não vê a mulher do apartamento? Tá grávida de Choppin! Não faça isso! Fique grávida! Vou cantar Amado Batista em sua homenagem!
ARLET
Cruz!
SANTOS
Pare de tomar a pílula... Pare de tomar a pílula... Porque ela não deixa nosso filho nascer...
ARLET
Cara você quer largar do meu pé? Eu vou chamar a polícia!
SANTOS
Polícia? Tem polícia aqui não, moça... Aqui é terra sem lei.
ARLET
Sem lei estava seu pai quando fez você.
SANTOS
Meu pai não me fez.
ARLET
Ah não? E quem fez?
SANTOS
Minha mãe, sou filho só de mãe! Meu pai é elemento de um coquetel. Sou filho de coquetel!
ARLET
Coquetel?
SANTOS
É que minha mãe era prostituta! Ela não sabe quem é meu pai... Expediente todo dia... O dia inteiro... Muitos clientes... Sabe como é... Cabelo de um... Nariz do outro... Cada hora ela me acha parecido com algum. Ontem ela me disse que eu era filho do Padeiro, semana que vem ela diz que é do dentista.
ARLET
Do dentista, por que?
SANTOS
É que ela tá precisando fazer um canal.
ARLET
Ah, entendi... Coisa mais doida!
SANTOS
O quê que foi?
ARLET
Ai, caramba... Sai daqui, cara! Você tá me deixando nervosa com essa coisa toda!
SANTOS
Com essa coisa toda de que?
ARLET
De “o quê que foi?”
SANTOS
Quê que foi o que?
ARLET
Escuta: de qual sanatório você fugiu, heim?
SANTOS
Sanatório? Vixeeeee... Você tá me achando maluco?
ARLET
São é que não, né? Pelo amor de Deus!
SANTOS
Que foi?
ARLET
Porra, que foi o quê, menino?
SANTOS
Que você tá olhando assim pra mim?
ARLET
Porra nem tô te olhando, se liga!
SANTOS
Sou filho de chocadeira não, porra! Você tá pensando isso mas eu não sou não! Preconceituosa! Minha mãe me deu a luz, cavala! Ela deitou na maca, abriu as pernas e “hummmmmmm... hummmmmmm... hummmmm....” Saí entalado assim de uma maneira que nem Jesus teve pena! Enrolou o cordão humbilical no meu pescoço. Me tacaram a mão na bunda e “coéeeeeeeee, coéeeeeeeeee, coéeeeeeeeeeee...” Maria de Nazaré! Gritou minha avó! Só depois que ela viu que eu era menino!
ARLET
Puta que pariu! Me deixa em paz! Nada do que você fala faz sentido!
SANTOS
E você aqui… Faz algum sentido?
ARLET
Como assim?
SANTOS
Tem algum sentido essa coisa toda?
ARLET
De que?
SANTOS
De você aqui?
ARLET
Porra a única coisa sem sentido aqui é você!
SANTOS
Você acha mesmo? Acha?
ARLET
Acho!
SANTOS
Pois eu digo que sem sentido é você!
ARLET
Ah é? E por que?
SANTOS
Porque você é meio assim... Sem sentido algum!
ARLET
Porra! Obrigado pela resposta! Clareou tudo!
SANTOS
O quê que foi?
ARLET
Ai, para de perguntar o quê que foi!
SANTOS
Quê que foi o que?
ARLET
Olha, cansei de você, vai ver se eu estou lá na esquina vai?
SANTOS
Na esquina?
ARLET
É! Vai lá vai...
SANTOS
Vou não...
ARLET
Por que?
SANTOS
Lá na esquina tá a gorda comendo doce!
ARLET
E o quê que tem?
SANTOS
“Quando eu nasci, não tinha talco... Mamãe passou açúcar ni mim...”
ARLET
Ai, puta que pariu, ela não vai querer te comer!
SANTOS
Vai.
ARLET
Hã, só você mesmo!
SANTOS
Vai, estou te dizendo! Olha gorda come qualquer coisa...
ARLET
Qualquer porcaria, você quer dizer...
SANTOS
Não, imagina! Só come do melhor! Só do melhor!
ARLET
Ah, tá bom...
SANTOS
Qualquer porcaria come mulher cega! Gorda não!
ARLET
Porra, garoto, se exerga!
SANTOS
Não dá!
ARLET
Por que?
SANTOS
Não tem espelho!
ARLET
Ai, porra, toma! Olha! Olha! Tá vendo? O quê que você vê?
SANTOS
Você!
ARLET
O que?
SANTOS
O quê o que?
ARLET
Você se olha e me vê?
SANTOS
Mas é claro!
ARLET
Por que?
SANTOS
Por que eu sou você!
ARLET
Hã? como assim?
SANTOS
Eu sou você!
ARLET
Ai, pára menino! Eu não sou você! Quer dizer, você não sou eu! Não pode!
SANTOS
Como assim não pode?
ARLET
Você é homem e eu sou mulher!
SANTOS
E...
ARLET
E o que?
SANTOS
E o quê o quê?
ARLET
Que você é homem e eu sou mulher!
SANTOS
Ah... O que é que tem?
ARLET
Você falou eeeee... Como quem diz “isso quer dizer que...”
SANTOS
Que não tem nada a ver... Eu sou seu lado masculino!
ARLET
Pára que mulher não tem lado masculino!
SANTOS
Ah não? Então pega aqui! Pega!
ARLET
Eu não consigo te pegar!
SANTOS
Tá vendo? Eu sou você! Você não consegue me pegar porque eu sou você!
ARLET
Mas não pode!
SANTOS
Pode! Eu sou você!
ARLET
Como assim?
SANTOS
Você está em crise! E no meio da rua! Quem fugiu do sanatório foi você, ou melhor, nós dois...
ARLET
Nós dois?
SANTOS
Foi, não se deu conta?
ARLET
Não.
SANTOS
Todo mundo aqui é você...
ARLET
Todo mundo quem?
SANTOS
Todo mundo... As pessoas ricas passando nos carros, a gorda comendo doce, o trombadinha da esquina e a mulher que tocava Choppin na buceta.
ARLET
Eu toquei choppin na buceta?
SANTOS
Tocou. Como uma mestra! Pianista de primeira!
ARLET
Mas a mulher tava no segundo andar, bicho!!
SANTOS
É que choppin é bom... Mas se fosse Mozart você estaria na cobertura, com certeza!
ARLET
Você tá me deixando confusa, cara! Pelo amor de Deus! Eu não toquei Choppin na buceta! Não no meio da rua!
SANTOS
Tocou sim!
ARLET
Porra, Não toquei, eu não sei uma música do Choppin!
SANTOS
Sabe sim! Quer ver? Fecha os olhos e escuta. Fecha!
Ela fecha os olhos e tenta escutar...
SANTOS
Tá escutando?
(Toca música do Choppin)
ARLET
Foi isso que eu tava tocando?
SANTOS
Não o que você tava tocando era isso...
(Toca outra música de Choppin. Ele rege.)
ARLET
Aiiiiii... que rápido!
SANTOS
Humrummmm... Insana você! Louca, louca, louca! Ninguém nunca tocou isso tão rápido. Ih, caramba, eles te acharam… Estão chegando...
(Entra um grupo de enfermeiros que se aproximam em câmera lenta.)
ARLET
Eles quem?
SANTOS
Os maestros.
ARLET
Que maestros?
SANTOS
De branco! Corra Lola Corra!
ARLET
Não consigo.
SANTOS
Por que?
ARLET
Eu sou gorda!
SANTOS
Não, não é... A gorda era o seu medo! Você é magra! Corra, Lola, Corra!
ARLET
Ai, droga, eles chegaram. E agora?
SANTOS
Agora você vai com eles... Porra, Lola, Porra!!!
ARLET
Você não vem?
SANTOS
Não.
ARLET
Por que?
SANTOS
Porque eu sou a sua vontade.
ARLET
Mas que vontade?
SANTOS
De liberdade!
ARLET
Será que a gente se encontra de novo?
SANTOS
Se você fugir...
ARLET
Então eu fujo!
SANTOS
Foge, foge sim... Assim a gente se encontra! E você pode ser o que quiser! Eu vou estar te esperando aqui!
(Os enfermeiros a levam. Santos a observa sendo levada lentamente pelos braços, abre um frasco de remédios e toma um comprimido, em seguida olha para o frasco.)
SANTOS
Se você parasse de tomar isso... Nunca ia se esquecer de mim!
B.O
Fim