sábado, 23 de janeiro de 2010

Discurso sobre a Bondade e Memórias – Infinito Mundo Meu

 

vitrola

DISCURSO SOBRE A BONDADE

Se uma alma pudesse falar, diria tudo aquilo que não fôra dito, ou que queria ter dito, mas não teve coragem. Porque, preso ao mundo, todo espírito é carne e como carne muitas vezes age, esquecendo do único valor verdadeiro da vida… que é o amor.”

Fiz esse poema pensando como se já não fosse carne. Pois embora carne, não gosto de pensar nem agir como tal. Sou ser do amor, da paixão e da fraternidade. E mesmo não sabendo o que será de mim depois da morte, acredito que a única coisa que poderá me salvar será o amor.

Viemos ao mundo para sermos felizes, para felicidade encontrar e felicidades proporcionar. E muito embora lute para obter coisas terrenas, o meu íntimo sabe que a verdadeira salvação está no amor e na bondade.

Bondade não é um estado de espírito e nem deve ser confundida com ingenuidade ou passividade, bondade é tudo aquilo que fazemos como por coração. Sem medir esforços para garantir a si mesmo e a outrem ao menos um pequeno momento de felicidade.

Bondade não é sinônimo de fragilidade. É um ato de coragem nesses nossos dias de hoje. Mas à bondade não se deve conferir honrarias, nem auto-análises, posto que assim enxergando-a já deixa de ser bondade em sua essência.

Há pessoas que a praticam para massagear o próprio ego e pensando fazê-la em verdade, praticam a maldade de apresentá-la como maior ou melhor e de expor a necessidade de um ou outro ato.

Mas a essência desse objeto não é coisa que se apalpe, não é coisa que se demonstre, mas simplesmente a parcela da natureza que lhe cabe.

Ser verdadeiramente bom é tarefa difícil, pois muitas vezes o que é bom para si, é ruim para outrem e o que é ruim para outrem, por vezes, é bom para si. Portanto, bom mesmo é o que contribui para o crescimento de todos, seja isto de sabor doce ou amargo.

A bondade quase sempre é confundida, é tirada por menos, é relativizada. Mas a bondade verdadeira é simples em sua essência, mesmo quando esta parecer-lhes imprópria. Acredito no retorno das coisas que se joga para o universo. Contudo, isso não explica nada. Posto que quem é bom, por vezes sofre e nem sempre quem sofre é necessariamente mau.

A bondade é como a boa música, e como toda boa música, não garantirá o gosto de todos, já que os gostos são diversos, mas tocará certamente o coração e a alma de uma grande maioria e principalmente na alma de quem ama.

 

 

INFINITO MUNDO MEU

Manifestar-me-ei

Nos teus livros da estante

Nos teus discos

Nos versos que alguém cante

No suave perfume da rosa que cheires

No lençol que cobrir teu corpo

Nos sonhos que sonhares

Pensando serem teus

Manifestar-me-ei

No sorriso dos filhos

E nos filhos dos filhos meus

No ocultamento indiscreto

Do lado seu incorreto

E no âmago das questões

De todos os camafeus

Manifestar-me-ei

Nas luzes que acendes

Nas águas correntes

Em bocas e dentes

Na música que tocas

Na língua

E nos lábios teus

Manifestar-me-ei

No teu álbum de fotos

No gosto doce do teu café

No filmes e lugares

Nos ares e mares

Desse mundo seu

Manifestar-me-ei

Em cada saudade

Em toda possibilidade

Em cheiros,

gostos,

sons

e em pele.

Manifestar-me-ei

Mas não te rebeles, nem me reveles!

Porque amor infinito

Ultrapassa o senso do dito

E torna tudo novamente vivo

Até mesmo o que todos dizem

Que já foi... Que já morreu.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

No Íntimo – Capítulo II – Continuação

canibalismoContudo, para se apresentar de tal maneira, desnudo de qualquer espécie de disfarce, é preciso coragem. E coragem, meus amigos, é dada somente aos ousados e vitoriosos; aos demais cabe sempre o conformismo e a desistência de tudo. Ando pelo mundo e olho nos olhos das pessoas procurando entender quem elas são, se são ousadas ou não. Mas confesso que ultimamente tenho visto poucos olhos com coragem. Eu vejo muita ideologia, muito idealismo, muita fé, mas pouca coragem. E é justamente pela falta de coragem que elas se escondem dentro de si como caramujos se conformando com tudo. No entanto, essas mesmas pessoas afirmam que têm fé, mas pouco adianta a fé sem a coragem para mudar seu próprio mundo.

No íntimo, aqueles que são dotados dessa agonia proveniente da ousadia, sofrem e sofrem muito. Pois aqueles que fazem o que os outros não tem coragem de fazer são tidos como loucos e, muitas vezes, como absurdos. E é nessa hora que eles percebem que são produtos. Não foram criados nem orientados para ousar, nem para romper padrões. Foram criados para seguir exatamente aquilo que dita as regras do mundo. E se dar conta disto é verdadeiramente sentir uma das piores dores do mundo. Porque, em verdade, você não pode ser aquilo que quer, você tem que ser o que quer o mundo. O conhecimento e o descobrimento são armas que podem ser letais, tanto para quem absorve quando para quem delas usa.

É quase como se você fosse a uma tribo indígena que nunca teve contato com a civilização. O índio olhará para você e vai descobrir que o mundo não é somente da cor que lhe parece. Há mais alguma coisa. Você sabe por que ele anda desnudo, mas ele não sabe por que você anda vestido. E quando ele lhe vê, ele se assusta, se esconde e te investiga. Ao contato dos olhos, ambos sentem medo, porque o medo é natural a tudo que não é conhecido. Mas depois de algum tempo, quando ambos se reconhecem de alguma forma, haverá a aproximação. E então, aos poucos, você acabará embutindo, mesmo sem querer, a necessidade de que o índio conheça um pouco mais do mundo. E você fará exatamente como fizeram os nossos colonizadores que lhes empurraram, antes de tudo, a religião e a filosofia. E você provavelmente ficará satisfeito e orgulhoso de si mesmo, porque falar de Deus é bom e porque Deus para você não é rio, não é fogo, não é lua, chuva, nem sol. Deus para você é algo que não se vê. E você põe na cabeça do Índio que um Deus verdadeiro não se apresenta a olhos vistos, não está presente na Terra, mas no espírito. Esse sim é um Deus superior porque é único e infinito. E ele acredita. Mas você esquece de aprender com o índio que Deus também é rio, é lua, fogo, chuva e sol. Isso você já não vê, sequer respeita porque Deus, para você, não é nada disso. Mas o índio, que agora já descobriu que tem algo além das matas, algo além daquilo que ele vê, passa a creditar também num Deus maior. Afinal de contas, se o mundo é maior que o que parece, Deus, não pode ser só os elementos que o circunda, e assim ele passa a acreditar no seu Deus. E a partir daí, o pobre índio vai querer saber um pouco mais do mundo, e vai querer sair da tribo. Contudo, ao primeiro contato dele com o mundo, ele vai perceber que não poderá andar desnudo, pois andar desnudo é vergonhoso. E é então que ele se veste com mais coisas do mundo. Logo ele deixa de morar em cabana e constrói uma casa. Ele para de dançar em roda e passa a assistir televisão. E descobre outras possibilidades e percebe que viver isolado não é tão bom. Ele sente a necessidade de sair das matas e viver na cidade, ser educado, ter um emprego, receber um salário e vai querer comprar um carro, uma casa mais chique, a tecnologia, falar mais que um idioma, conhecer o mundo ligeiro e andar no seu ritmo, vai sofrer para conseguir dinheiro e mais dinheiro e para criar, educar e tornar confortável a vida dos seus filhos e a dos filhos de seus filhos, para chegar ao fim da vida e ser enterrado por um coveiro, longe das matas, longe da tribo, do Deus sol, lua, fogo chuva e do Deus rio. E, nisso tudo, no que valeu a pena deixar de ser índio?

Nós, dessa imensa tribo chamada civilização, não sabemos, nem achamos, mas praticamos a pior espécie de canibalismo. Nós já nascemos verdadeiros canibais. Eliminamos os indivíduos menos aptos e nos alimentamos daqueles que nos dão mais, tal como fazem alguns insetos. É uma antropofagia de interesses. É isso que aprendemos e que ensinamos aos demais, para que sobrevivam na nossa “tribo”. Essa espécie de “canibalismo” não terá fim, jamais. Comer o próximo e o próximo do próximo, (mesmo que o próximo não esteja próximo), fazer o próximo ser comido pelos demais ou puramente alimentar-se das proteínas do próximo para que fiquemos mais fortes. Isso, para nós, não é novidade e, por vezes, nem parece um pecado assim tão grave. E dependendo do que seja, pecado não é, em verdade. Contudo precisamos aprender a ser um pouco menos canibais. A parar de eliminar os outros ou nos auto-eliminarmos. Nós não notamos, mas andando como os caramujos andam, vestidos em nossas carapaças, estamos a esconder-nos parcialmente do mundo e esconder-nos parcialmente do mundo é praticamente anular-nos perante a ele. E pondo em destaque que anular-se em nossos dias é o mesmo que eliminar-se e que eliminar-se é também entender-se unicamente como um produto, isso quer dizer que nos portamos como células que praticam autólise, (células que se autodestroem espontaneamente.) E depois de destruídos, já não somos células e não valemos mais nada para o mundo.  

LINKS:   CAPÍTULO I

            CAPÍTULO II – PRIMEIRA PARTE

domingo, 3 de janeiro de 2010

O SEGREDO

Capítulo I - A CURIOSIDADE

...

- Conta?

- O que?

- Teu segredo.

- Não conto.

E não contaria mesmo! Ricardo e Cláudia eram namorados, mas pairava sobre o casal a descoberta de Cláudia de que Ricardo tinha um segredo. Namoravam há mais de oito anos já e ter um segredo há esta altura do campeonato era algo inaceitável por Cláudia. Mas ela relevava... O namorado era rico e, diante das condições em que se encontrava no momento, isso já nem era o mais importante, mas mesmo assim insistia:

- Ah, que nada! Conta vai?

- Por que quer saber?

- Por que eu quero!

- Mas é segredo. Não posso contar. Segredo é segredo.

- Poxa, você não confia em mim, né? Impressionante...

- E por que deveria?

- Por que sou sua namorada! Não basta?

- Não, não basta! Não confio em mulher. É bicho danado!

- Então está bem... Mas olha: Tenho que te contar uma coisa...

- O que?

- Estou grávida!

- Grávida?

- Estou.

Esta seria, para Ricardo, a pior notícia do ano. Grávida! Com tantas medidas de precaução, com tabela, anticoncepcional, o que dera errado?

- Mas como você pôde ficar grávida?

- Há... Vai dizer que não sabe?

- E agora?

- Agora a gente casa!

- Mas assim... Do nada?

- Casa. Olhe, meu filho: Não tem outro jeito. Papai é um santo! Mas mexeu comigo... Ele vira o diabo!

Ricardo estava desesperado. E, apesar do silêncio, um furacão girava em sua cabeça procurando alguma solução ao menos um pouco sensata, para ele!

- E se a gente tirasse sem que ele soubesse?

- O que? O filho?

- É... Seria melhor pra nós dois...

Ricardo definitivamente não queria aquele filho. E achava um absurdo o fato de Claudia ter engravidado. Suspeitava que tivesse feito de propósito ou ainda que ela estivesse inventando... O que não parecia... Pois sabia quando estava apenas a fitando nos olhos... E isso lhe deixava cada vez mais desesperado, enquanto Cláudia relutava:

- Por que seria melhor tirar?

- Você ainda estuda... Nem ao menos é formada! Tem que seguir os passos do seu irmão... Veja como ele é responsável... Competente... Já é até formado!

- Ah, meu filho. Agora não tem jeito. Se depender de mim, a gente casa! E ser como Marcelinho eu não quero. Nunca quis.

- Pois então fique sabendo que se depender de mim a gente não casa!

- Por que? Você não me ama?

- Amo, mas não é pra casar...

- Então não ama!

- Deixa eu te explicar: Eu não posso ter um filho, não posso!

- Por que não pode? Você é rico...

- É, mas eu não posso ter um filho, definitivamente! Você vai ter que tirar!

Mas Cláudia era ambiciosa... Esse filho agora era um trunfo e irredutivelmente ela afirmava:

- Eu não vou tirar, querido! Esqueça essa idéia... Essa criança vai nascer filho de homem rico!

- Então foi por isso...

- O que?

- Que aceitou ficar comigo...

- Pelo dinheiro? Jamais, isso veio em segundo lugar.

- Você é descarada mesmo, não é?

- Por que?

- Está me dizendo isso na cara...

Ao mesmo tempo em que Cláudia ficava ressentida com a recusa do namorado, ela se divertia por vê-lo, enfim, encurralado:

- Ai, você é demais... Também tenho que pensar no dinheiro, meu filho! Só por isso eu sou descarada? E você? Cheio de segredos com sua namorada... Não vai mesmo me contar?

- Não vou... Quer dizer, agora não sei...

- Hum... Já melhorou.

- Eu conto, mas só se você me prometer que vai tirar...

- Aí não... É meu filho!

- É meu também! E não o quero o mundo!

- Por que?

- Pra quer colocar uma criança no mundo? É tudo tão seco, tão duro, tão raso!

- Raso? Que nada! A vida é profunda, querido... É feliz, encantada... Ainda pra mais pra você que tem dinheiro!

E apesar da relutância, de todo jeito, Ricardo tentava desanimá-la:

- É, mas um filho é danado! E dinheiro não nasce em pedra! Pensa bem... Nós somos muito jovens!

- E o que tem demais?

- Tem muita coisa... Já pensou na sua barriga? Nos seus peitos?

- O que tem?

- Vai ficar cheia de estrias... Na barriga e nos peitos! E ambos ficarão moles e caídos!

- O que tem, meu filho? Eu faço plástica!

- E na sua liberdade, já pensou? Não vai poder ir às festas... Nem aos bailes! Isso dinheiro não paga!

- Paga...

- Não, não paga não, ouviu?

- Paga, paga, paga sim! Eu vou ser chique! Contrato uma babá!

Estava certo de que Cláudia realmente estava grávida. Não seguraria por tanto tempo uma mentira. E agora a coisa se tornara muito mais complicada, porque Cláudia queria por fim da força ter o filho que Ricardo não queria. Indignado com a atitude de Cláudia, Ricardo prosseguia:

- Então vai criar um filho com uma babá?

- Vou sim... Por que não?

- Você é mesmo uma irresponsável!

- Por que? Pelo filho?

- É sim... É... Pelo filho!

- Ah, querido... Somos ambos culpados! Não vai me contar seu segredo?

- Que segredo? Depois de uma bomba destas...

- Coitado!

- Sou mesmo! Um coitado!

- Quem mandou se meter a besta? Eu sou de família!

- Que família? Você mora na Lapa!

- E o que tem isso? Na Lapa não tem família?

- Nobre e rica?

- Nobre tem... Só não tem milionária!

- Então você quer mesmo ter o filho...

- Mais que tudo! Só tiraria se fosse de pobre!

Convicto de que não haveria saída para esse papo, Ricardo se rendeu:

- Está bem, então nós vamos ter o filho.

- Jura?

- Juro!

- E vamos casar?

- Vamos!

- Mas tem que ser na igreja! De véu e grinalda!

- Está bem... Mas só se me prometer uma coisa...

- O que?

- Vamos manter isto em segredo.

- Mas por que?

- Não gosto de alarde.

- Ah, sei... Por que? Por causa do Papparazzi?

- É.

- Mas eu adoraria sair na revista, poxa! Não posso contar?

- Não, pelo menos por agora...

- Ai, está bem!

- Então vamos manter isso entre nós?

- Vamos.

- Então jura que nem sem pai!

- Nem meu pai.

- Nem seu irmão.

- Meu irmão?

- É.

- Mas meu irmão não tem problema. Você sabe... Marcelinho é meu confidente... É...

- Eu sei, mas mesmo assim. Nem ele!

- Está bem... Nem ele!

- Está bem então. Eu vou para casa. Mais tarde te ligo!

- Mas está tão cedo...

- Não... Está tarde. Te ligo mais tarde.

- E o segredo? Vai me contar ou não?

- Ainda está cedo. Mas eu te conto, uma hora eu te conto...

- Está bem então, meu anjo. Vai com Deus então... Digere bem a notícia, tá? Papaizão!

Capítulo II - DEVAGAR

Na semana seguinte a que se passara da notícia-bomba de Cláudia, Ricardo a telefonara. Tinha sumido depois da notícia. Passaram horas no telefone conversando até marcarem então um encontro. Cláudia, enfim esperava-o no ponto de ônibus de frente ao convento Santo Antônio quando ele chegara e enfurecida, ela exalou:

- Eu só quero te dizer uma coisa: Isso não é coisa que se faça! Estou aqui há mais de duas horas esperando e você nada... Sem contar o telefonema, que só me deu depois de uma semana!

- Já lhe pedi desculpas. E o atraso foi o trânsito.

- Trânsito... Até parece que pegou um ônibus.

- E peguei

- Você? Há... Duvido, meu filho!

- Peguei sim. Se você duvida, não posso fazer nada!

- E o segredo? Decidiu me contar?

- Decidi. Eu vou lhe contar.

- Então conta!

- Não agora.

- Meu Deus, mais que saco!

- O que?

- Essa coisa de não me contar!

- Você é muito curiosa.

- Você vai ser meu marido, esqueceu? Não podemos ter segredos.

- Calma! Eu vou lhe contar!

- Quando, meu filho? Quando?

- Quando você parar de me cobrar!

- Ai, tá bom... Tá... Já decidiu?

- O que?

- A data em que vamos nos casar?

- Ainda não.

- Nossa... Você é devagar! Até nisso é devagar!

Após o acontecido, no ponto de ônibus, os dois saíram e foram jantar. Dois dias depois Ricardo ligou para a casa dela, falou um pouco com o irmão e com o pai. Ambos não sabiam de nada. Marcaram então de se encontrarem novamente.

Capítulo III - O CASAMENTO

Em algum lugar do Leblon estava Cláudia, prontíssima, e esperando por Ricardo que se atrasara alguns minutos... Mal o namorado chegou ao lugar, impacientemente, ela já fôra o interpelando:

- Já marcou a data?

- Já.

- E o segredo?

- Eu vou lhe contar.

- Então conta!

- Aqui não é o lugar.

- Não falo mais com você! Tchau.

Claudia deu as costas e foi saindo sem dizer palavra mais! Ricardo correu atrás e alcançando-a conversou:

- Espera... Como assim? Tudo isso por causa de um segredo?

- É sim. Estou pra morrer com essa história! Sim, por que casar nós vamos casar! Agora o segredo... Nada de você me contar! Estou passando mal até com isso!

- Mas, minha filha... Este é o único segredo que tenho. Não lhe escondo nada! Minha vida é um livro aberto!

- Ah, é sim... Eu só não consigo ler as páginas!

- Meu anjo, eu vim aqui lhe contar a data que marquei. E é assim que você me recebe?

- Mas é claro! Eu vou me casar e meu futuro marido tem um segredo que não quer me revelar... Como você queria que eu estivesse com isso?

- Eu vou lhe contar, também já decidi o dia.

- E quando é então?

- Amanhã!

- Ai, que inferno! Conta logo! É tão grave assim? O quê que é? Tem câncer?

- Não.

- Aids?

- Não.

- Outra mulher!

- Não.

- Ai, desisto. Já cansei de pensar... Tudo que lhe pergunto é não!

- Escute: Amanhã eu vou lhe contar. Prometo.

Cláudia não acreditou nesse momento e olhando-se nos olhos e de braços cruzados perguntou:

- Jura?

- Juro.

- Se você não me contar...

- Eu conto.

- Então está certo. Amanhã então... Onde?

- Lá em casa... Mandei preparar um jantar pra nós dois...

Ricardo conseguira então, com isso derreter o coração de Cláudia. Encantada ela emana:

- Ai jura? Que lindo isso! Mas por que?

- Estou arrependido de ter te pedido para tirar o filho. Agora nós vamos nos casar! Marquei a data para vinte e sete deste mês ainda. Está bom pra você?

A notícia era um sonho para Cláudia. E acreditava piamente na mudança do namorado. “Todo homem se compadece com essa história de filho. No começo pode até fazer pirraça, mas normalmente se rendem às responsabilidades e aos caprichos da grávida”. Cláudia pensava isto e repetia a data quase sonhando:

- Vinte e sete? Daqui a duas semanas?

- É.

- Ai, está ótimo. Ai, meu Deus... Mas e o meu vestido? E a festa? As coisas todas?

- Não se preocupe com nada. Estou providenciando tudo. Hoje mesmo você pode ir provar um vestido que encomendei pra você. Está aqui o endereço da loja. Tem também um lugar para você passar o dia da noiva. Eles vão cuidar de você... Está aqui. E a festa, eu ainda estou decidindo o lugar.

- E a igreja?

- Na Catedral de São Sebastião, gosta? Se não gostar ainda posso mudar!

- Não acredito! Que amor... Meu sonho era casar lá.

- Olhe: Este cheque é para o seu enxoval. Precisa estar preparada para se casar.

- Ai paixão, você está pensando em tudo! Já posso contar? Pelo menos para o meu pai e meu irmão?

- Depois de amanhã, quando eu lhe contar o segredo.

- Vai mesmo me contar?

- Vou. Nós vamos casar!

- Então tá. Ai, agora estou ansiosa. Quero ir logo à loja!

- Então vá... Vá...

- Eu vou, mas amanhã à noite estarei na sua porta.

- Não precisa ir, eu venho lhe buscar.

- De carro?

- De carro!

- Ai, então tá... Deixa eu ir senão morro de curiosidades sobre o vestido!

- Vá então. Vá...

- Te ligo mais tarde!

- Tá...

No dia seguinte, Ricardo apareceria na casa de Cláudia, conforme o combinado e a pegaria para jantar.

Capítulo IV - O SEGREDO

No salão de festas da casa de Ricardo, os dois dançavam. Não existiam convidados. A festa era somente para eles. Os dois, muito bem arrumados, estavam ali havia alguns minutos... Cláudia estava muito feliz. Encantada com tudo. E enquanto dançava com ele imaginava até se esse segredo poderia ser a maior surpresa da festa. E seria... Quem sabe até o próprio casamento... Os convidados poderiam estar escondidos por ali - pensava ela. “Que tola! Cobrar tanto um segredo que podia ser tão lindo...” E meio a tudo isso, em plena dança, ela, quase que sussurrando, exala:

- Muito obrigada. Está tudo muito lindo!

- Você merece!

- Imagina... Te perturbei demais pra saber teu segredo, não é?

Olhavam-se nos olhos quase que flutuando sobre a música. Ela, com uma respiração ofegante como a de quem realmente se apaixona e não só pelo dinheiro do outro. Ele, fitando-a nos olhos, proferiu:

- Perturbou. Mas não tem problema. É melhor assim... Não teremos segredos entre nós.

Logo uma mão boba apareceu, em algum lugar de Cláudia. Meio que desconsertada, olhou para confirmar se estavam sozinhos:

- Estamos mesmo sozinhos?

- Mas é claro. Não faria isto com você se estivéssemos acompanhados.

- Ai, que bom, porque, você sabe... Eu sou de família.

- Eu sei...

Beijaram-se e foram direto para o chão, no meio do salão. Ali mesmo, Ricardo começou a esquentá-la como nunca. E ela, com mais respiração do que fala, implorou:

- Me conta... Vai...

- O que?

- Teu segredo!

- O meu segredo?

- É...

- Quer mesmo saber?

- Quero. Conta... Conta...

Foi então que Ricardo revelou o segredo:

- O meu segredo... é...

E disse-lhe ao pé do ouvido o tão cobrado segredo... Ela, pasma, olhou-lhe nos olhos e, sem querer acreditar, levou a mão à boca, enrugou a testa e permaneceu olhando para ele completamente paralisada.

FIM.

NO ÍNTIMO – CAPÍTULO II

CAPÍTULO II

DO CONFORMISMO ABSURDO

Quando eu me sento aqui, nesse calor insuportável das noites de verão, que não ventam, e penso no absurdo do mundo, fico quase como quando estou com crise de asma. É sufocante pensar assim. Isso dá falta de ar no espírito. As costas doem, o pescoço fica tenso e você pensa que melhora quando põe algo pra fora. Aí vem todas aquelas receitinhas que inquestionavelmente não adiantam de nada – café, banho frio, calma, calma – A calma até que é boa, mas não adianta nada. Tentar sanar um problema com remedinhos paliativos não adianta de nada. Para curar, você tem que usar a medicação correta. Mas nas questões pessoais, por vezes, a gente opta pelo “paliativo”. Por que? Eu já disse aqui que sou um produto e que não tenho qualquer valor considerável. Portanto eu peço que não levem tão a sério as coisas que digo, mas esse mundo é uma bosta. E não me importa se você gosta. Ele é uma bosta. Outro dia conversei com um amigo que lia uma carta que ele havia escrito para um amigo padre. Em um dado momento exclamou “E tudo isso porque algum dia, um idiota cercou um pedaço de terra e gritou que era seu! Seu?” Eu fiquei com essa frase na cabeça. “MEU?” O que é meu nesse mundo?  Eu não sou nada e não tenho nada.

Desse mundo eu espero levar apenas uma coisa: “A bendita dignidade” Eu quero viver e continuar presente por mais algum tempo e se possível fosse, para a posteridade, na única intenção de dizer o que as pessoas precisam escutar. Talvez eu quisesse que vivêssemos num mundo em que não fôssemos vistos a todo tempo como produto. Eu gosto muito de encontrar com amigos descompromissados. Preferivelmente os que não estão desempregados, pois estes só lamentam. Mas gosto de me encontrar com amigos que não tem nada a fazer. Bater um papo ao som de uma boa música, fumar alguns charutos, beber um bom vinho e divagar sobre o nada. Eu procuro evitar um pouco dar as minhas opiniões sobre o mundo quando estou com eles nesses momentos. Mesmo porque eles sempre me acham um tanto quanto absurdo. E quando falo, eu vejo balõezinhos nas suas cabeças dizendo “Mas o mundo é assim.” “Não adianta divagar porque isto não vai adiantar em nada.” Essa espécie de conformismo soa quase como você ir à farmácia e não ter remédio que cure a sua asma.

Eu tenho pavor do conformismo e pavor de quem acha que não tem jeito. Devo concordar que muitas coisas são de certa maneira porque simplesmente são assim. Mas não há nada que não possamos mudar. Enquanto conversamos, sem pretensão alguma, eu sei que faço com que vejam um ou outro ponto que gostaria que vissem. E não me importa tanto se concordam ou não comigo, o que importa é que vocês vejam esses pontos. Isso inevitavelmente gera uma mudança no seu estado de espírito nesse momento, assim como no meu que também muda. Aqui, diante de você eu estou completamente nu. Eu falo abertamente, como que sem qualquer critério de escolha para dizer o que digo, porque não faz nenhum sentido eu tentar esconder-me de mim enquanto lhes olho nos olhos e lhes falo de alma. Parecer agradável em algum momento não é mesmo o meu intento. Mesmo porque eu sei que não sou agradável. E é exatamente isso que me faz não ter qualquer valor considerável.

Eu tento, juro que tento agradar a todos, mas tento agradá-los da maneira mais incomum que existe. Que é fazendo-os ver que nada vale mais que aquilo que mora em nosso íntimo. Nós não somos roupas, não somos casas, carros, aparelhos eletrônicos, maquinários, nem grifes ou marcas. Nós somos nós, somente, sem nada disso. E é engraçado perceber que o que temos de mais verdadeiro para ofertar, a gente esconde. E escondemos porque estamos conformados de que nem tudo aquilo que somos deve ser apresentado, então o que apresentamos é o que é cabível e agradável. Eu sou o oposto desta regra. Quero sempre apresentar tudo que sou verdadeiramente. E isso não é um presente e nem uma dádiva. É por vezes um insulto.

(Continua…)

LINK: CAPÍTULO I - DA INSUSTENTÁVEL DISCORDÂNCIA

         CAPÍTULO II - CONTINUAÇÃO