domingo, 3 de janeiro de 2010

NO ÍNTIMO – CAPÍTULO II

CAPÍTULO II

DO CONFORMISMO ABSURDO

Quando eu me sento aqui, nesse calor insuportável das noites de verão, que não ventam, e penso no absurdo do mundo, fico quase como quando estou com crise de asma. É sufocante pensar assim. Isso dá falta de ar no espírito. As costas doem, o pescoço fica tenso e você pensa que melhora quando põe algo pra fora. Aí vem todas aquelas receitinhas que inquestionavelmente não adiantam de nada – café, banho frio, calma, calma – A calma até que é boa, mas não adianta nada. Tentar sanar um problema com remedinhos paliativos não adianta de nada. Para curar, você tem que usar a medicação correta. Mas nas questões pessoais, por vezes, a gente opta pelo “paliativo”. Por que? Eu já disse aqui que sou um produto e que não tenho qualquer valor considerável. Portanto eu peço que não levem tão a sério as coisas que digo, mas esse mundo é uma bosta. E não me importa se você gosta. Ele é uma bosta. Outro dia conversei com um amigo que lia uma carta que ele havia escrito para um amigo padre. Em um dado momento exclamou “E tudo isso porque algum dia, um idiota cercou um pedaço de terra e gritou que era seu! Seu?” Eu fiquei com essa frase na cabeça. “MEU?” O que é meu nesse mundo?  Eu não sou nada e não tenho nada.

Desse mundo eu espero levar apenas uma coisa: “A bendita dignidade” Eu quero viver e continuar presente por mais algum tempo e se possível fosse, para a posteridade, na única intenção de dizer o que as pessoas precisam escutar. Talvez eu quisesse que vivêssemos num mundo em que não fôssemos vistos a todo tempo como produto. Eu gosto muito de encontrar com amigos descompromissados. Preferivelmente os que não estão desempregados, pois estes só lamentam. Mas gosto de me encontrar com amigos que não tem nada a fazer. Bater um papo ao som de uma boa música, fumar alguns charutos, beber um bom vinho e divagar sobre o nada. Eu procuro evitar um pouco dar as minhas opiniões sobre o mundo quando estou com eles nesses momentos. Mesmo porque eles sempre me acham um tanto quanto absurdo. E quando falo, eu vejo balõezinhos nas suas cabeças dizendo “Mas o mundo é assim.” “Não adianta divagar porque isto não vai adiantar em nada.” Essa espécie de conformismo soa quase como você ir à farmácia e não ter remédio que cure a sua asma.

Eu tenho pavor do conformismo e pavor de quem acha que não tem jeito. Devo concordar que muitas coisas são de certa maneira porque simplesmente são assim. Mas não há nada que não possamos mudar. Enquanto conversamos, sem pretensão alguma, eu sei que faço com que vejam um ou outro ponto que gostaria que vissem. E não me importa tanto se concordam ou não comigo, o que importa é que vocês vejam esses pontos. Isso inevitavelmente gera uma mudança no seu estado de espírito nesse momento, assim como no meu que também muda. Aqui, diante de você eu estou completamente nu. Eu falo abertamente, como que sem qualquer critério de escolha para dizer o que digo, porque não faz nenhum sentido eu tentar esconder-me de mim enquanto lhes olho nos olhos e lhes falo de alma. Parecer agradável em algum momento não é mesmo o meu intento. Mesmo porque eu sei que não sou agradável. E é exatamente isso que me faz não ter qualquer valor considerável.

Eu tento, juro que tento agradar a todos, mas tento agradá-los da maneira mais incomum que existe. Que é fazendo-os ver que nada vale mais que aquilo que mora em nosso íntimo. Nós não somos roupas, não somos casas, carros, aparelhos eletrônicos, maquinários, nem grifes ou marcas. Nós somos nós, somente, sem nada disso. E é engraçado perceber que o que temos de mais verdadeiro para ofertar, a gente esconde. E escondemos porque estamos conformados de que nem tudo aquilo que somos deve ser apresentado, então o que apresentamos é o que é cabível e agradável. Eu sou o oposto desta regra. Quero sempre apresentar tudo que sou verdadeiramente. E isso não é um presente e nem uma dádiva. É por vezes um insulto.

(Continua…)

LINK: CAPÍTULO I - DA INSUSTENTÁVEL DISCORDÂNCIA

         CAPÍTULO II - CONTINUAÇÃO

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