Contudo, para se apresentar de tal maneira, desnudo de qualquer espécie de disfarce, é preciso coragem. E coragem, meus amigos, é dada somente aos ousados e vitoriosos; aos demais cabe sempre o conformismo e a desistência de tudo. Ando pelo mundo e olho nos olhos das pessoas procurando entender quem elas são, se são ousadas ou não. Mas confesso que ultimamente tenho visto poucos olhos com coragem. Eu vejo muita ideologia, muito idealismo, muita fé, mas pouca coragem. E é justamente pela falta de coragem que elas se escondem dentro de si como caramujos se conformando com tudo. No entanto, essas mesmas pessoas afirmam que têm fé, mas pouco adianta a fé sem a coragem para mudar seu próprio mundo.
No íntimo, aqueles que são dotados dessa agonia proveniente da ousadia, sofrem e sofrem muito. Pois aqueles que fazem o que os outros não tem coragem de fazer são tidos como loucos e, muitas vezes, como absurdos. E é nessa hora que eles percebem que são produtos. Não foram criados nem orientados para ousar, nem para romper padrões. Foram criados para seguir exatamente aquilo que dita as regras do mundo. E se dar conta disto é verdadeiramente sentir uma das piores dores do mundo. Porque, em verdade, você não pode ser aquilo que quer, você tem que ser o que quer o mundo. O conhecimento e o descobrimento são armas que podem ser letais, tanto para quem absorve quando para quem delas usa.
É quase como se você fosse a uma tribo indígena que nunca teve contato com a civilização. O índio olhará para você e vai descobrir que o mundo não é somente da cor que lhe parece. Há mais alguma coisa. Você sabe por que ele anda desnudo, mas ele não sabe por que você anda vestido. E quando ele lhe vê, ele se assusta, se esconde e te investiga. Ao contato dos olhos, ambos sentem medo, porque o medo é natural a tudo que não é conhecido. Mas depois de algum tempo, quando ambos se reconhecem de alguma forma, haverá a aproximação. E então, aos poucos, você acabará embutindo, mesmo sem querer, a necessidade de que o índio conheça um pouco mais do mundo. E você fará exatamente como fizeram os nossos colonizadores que lhes empurraram, antes de tudo, a religião e a filosofia. E você provavelmente ficará satisfeito e orgulhoso de si mesmo, porque falar de Deus é bom e porque Deus para você não é rio, não é fogo, não é lua, chuva, nem sol. Deus para você é algo que não se vê. E você põe na cabeça do Índio que um Deus verdadeiro não se apresenta a olhos vistos, não está presente na Terra, mas no espírito. Esse sim é um Deus superior porque é único e infinito. E ele acredita. Mas você esquece de aprender com o índio que Deus também é rio, é lua, fogo, chuva e sol. Isso você já não vê, sequer respeita porque Deus, para você, não é nada disso. Mas o índio, que agora já descobriu que tem algo além das matas, algo além daquilo que ele vê, passa a creditar também num Deus maior. Afinal de contas, se o mundo é maior que o que parece, Deus, não pode ser só os elementos que o circunda, e assim ele passa a acreditar no seu Deus. E a partir daí, o pobre índio vai querer saber um pouco mais do mundo, e vai querer sair da tribo. Contudo, ao primeiro contato dele com o mundo, ele vai perceber que não poderá andar desnudo, pois andar desnudo é vergonhoso. E é então que ele se veste com mais coisas do mundo. Logo ele deixa de morar em cabana e constrói uma casa. Ele para de dançar em roda e passa a assistir televisão. E descobre outras possibilidades e percebe que viver isolado não é tão bom. Ele sente a necessidade de sair das matas e viver na cidade, ser educado, ter um emprego, receber um salário e vai querer comprar um carro, uma casa mais chique, a tecnologia, falar mais que um idioma, conhecer o mundo ligeiro e andar no seu ritmo, vai sofrer para conseguir dinheiro e mais dinheiro e para criar, educar e tornar confortável a vida dos seus filhos e a dos filhos de seus filhos, para chegar ao fim da vida e ser enterrado por um coveiro, longe das matas, longe da tribo, do Deus sol, lua, fogo chuva e do Deus rio. E, nisso tudo, no que valeu a pena deixar de ser índio?
Nós, dessa imensa tribo chamada civilização, não sabemos, nem achamos, mas praticamos a pior espécie de canibalismo. Nós já nascemos verdadeiros canibais. Eliminamos os indivíduos menos aptos e nos alimentamos daqueles que nos dão mais, tal como fazem alguns insetos. É uma antropofagia de interesses. É isso que aprendemos e que ensinamos aos demais, para que sobrevivam na nossa “tribo”. Essa espécie de “canibalismo” não terá fim, jamais. Comer o próximo e o próximo do próximo, (mesmo que o próximo não esteja próximo), fazer o próximo ser comido pelos demais ou puramente alimentar-se das proteínas do próximo para que fiquemos mais fortes. Isso, para nós, não é novidade e, por vezes, nem parece um pecado assim tão grave. E dependendo do que seja, pecado não é, em verdade. Contudo precisamos aprender a ser um pouco menos canibais. A parar de eliminar os outros ou nos auto-eliminarmos. Nós não notamos, mas andando como os caramujos andam, vestidos em nossas carapaças, estamos a esconder-nos parcialmente do mundo e esconder-nos parcialmente do mundo é praticamente anular-nos perante a ele. E pondo em destaque que anular-se em nossos dias é o mesmo que eliminar-se e que eliminar-se é também entender-se unicamente como um produto, isso quer dizer que nos portamos como células que praticam autólise, (células que se autodestroem espontaneamente.) E depois de destruídos, já não somos células e não valemos mais nada para o mundo.
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