domingo, 20 de dezembro de 2009

O Último Nazista

Bondinho_Rio_1940Era uma noite deslumbrante, uma dessas que somente é possível ver quando estamos inebriados por uma dose de sensibilidade. O céu estava luminoso e os raios da lua refletiam na pele. Numa noite dessas é impossível que o leitor pense que pudesse ocorrer qualquer espécie de brutalidade, mesmo porque este seria o cenário perfeito para o início de um belo romance. Mas o que compartilho convosco não é um romance e nem tem a pretensão de ser. O que conto ao amigo leitor é a história de uma tragédia. E antes de descrever o que os meus olhos puderam presenciar e o que o meu coração pôde sentir nesta noite, tenho o dever de lhes manter a par de como tudo começou.

No ano de 1945 eu estava no escritório de meu pai, que exercia advocacia, quando entrou um senhor com pouco mais de quarenta anos. Recordo-me de ser um dia chuvoso na cidade. Alfred Munsberg era o nome do energúmeno que adentrou encharcado da chuva e perguntou por meu pai. A estúpida secretária apontou-lhe a sala em que ele estava e para onde, em seguida, o sujeito entrou. Ao abrir a porta, ele o chamou pelo nome e atirou. Depois disso saiu como se nada tivesse acontecido. Eu, que brincava com meu carrinho de brinquedo num banco da recepção, presenciei toda a cena e vi o sujeito ir embora do escritório na chuva sem que ninguém fizesse nada. Depois que ele saiu, os funcionários correram para socorrer o meu velho, mas já era tarde.

Há de convir, o amigo leitor, que uma criança que presencia o assassinato do seu próprio pai não há de viver com a mesma normalidade psicológica com que vivem as demais. Mas com o tempo eu aprendi a superar um pouco esse trauma. Embora nunca tenha esquecido o rosto desse homem e nem o do meu pai, dando os últimos suspiros no chão enquanto os seus colegas do escritório, desesperados, tentavam trazê-lo de volta.

Inevitavelmente, depois da morte do patriarca, os negócios da família afundaram. Pois muito embora fôssemos uma família de posses, ninguém tinha a capacidade administrativa que tinha o meu velho. Sendo assim, o escritório foi fechado e, diante de tantas dívidas, pouco tempo depois, fomos obrigados a deixar a nossa casa e a nos mudarmos para outra residência, bem mais modesta, no subúrbio da cidade.

Minha mãe, limitada aos afazeres domésticos, empregou-se numa firma estrangeira, onde fazia serviços gerais. E todos os dias eu lhe levava o almoço. Enquanto ela comia, nós conversávamos, entre outras coisas, sobre a falta que fazia o meu pai. A bem da verdade eu nunca falei sobre o assunto, apenas escutava seu desabafo. Até o dia em que eu lhe disse que queria ser advogado.

O amigo leitor também já deve imaginar a normalidade com que isso acontece, posto que um pai tende a ser o espelho do filho. E assim sendo, meu pai era o meu, até certo grau da minha análise. E continuou a ser o meu espelho mesmo depois de sua morte. Não subestimando a inteligência do nobre leitor, que sei que a esta altura já deve se perguntar por que então mataram o meu pai, já que me foi, até certo ponto um exemplo, esclarecerei o que antecedeu ao seu homicídio. E para explicar-lhe é preciso que voltemos um ano antes, mais precisamente ao dia 30 de junho de 1944:

No auge da Segunda Guerra Mundial, a Força Expedicionária Brasileira, sob o comando do general João Batista Mascarenhas de Moraes, embarcava para Itália, afim de entrar em combate junto a seus aliados. A FEB desembarcaria em Nápoles, no sul Itália. O meu tio, irmão mais novo de meu pai, havia sido convocado pelo exército e estaria no combate. Em dezembro do mesmo ano, nós estávamos em casa e o meu pai lia as notícias e cartas do meu tio com muita euforia enquanto tomava café e fumava o seu charuto. Esse foi um ano de glória em território nacional.

 

A FEB, constituída inicialmente por uma divisão de infantaria, acabou por abranger todas as forças militares Brasileiras que participaram do conflito. Adotou como lema "A cobra está fumando", em alusão ao que se dizia à época que era "mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra". A expedição foi um sucesso. O Brasil e mundo saíram vitoriosos, com exceção de meu pai. O meu tio tinha morrido em combate, no terceiro assalto a Monte Castelo em 12 de dezembro de 1944.

 

 

O seu nome estava na lista dos 457 brasileiro mortos na Guerra.

 

Quando a primeira lista de soldados mortos em Monte Castelo foi divulgada, já não recebíamos notícias do meu tio há algumas semanas. E até então a nossa esperança era de que ele estivesse vivo. À cada lista divulgada, todos olhavam tensos, mas logo depois, respiravam aliviados. Seu nome veio na lista dos mortos no terceiro assalto. E quando o meu pai o leu, chorou engasgado amassando a lista entre as mãos. Depois saiu de casa como que completamente tomado pelo ódio e agrediu a um vizinho alemão, entrando em sua casa e chamando-o de facínora e, entre outras coisa, de Nazista.

Os Munsberg eram uma família antiga no Rio de Janeiro e também tinham seus parentes na guerra, só não sabíamos de qual lado, mas sabíamos que tinham parentes, porque acompanhavam sempre e atentamente a todos os noticiários e recebiam cartas pelos correios remetidas sempre de um endereço Italiano ou Alemão. Meu pai não tinha certeza se eles realmente eram Nazistas ou não, mas afirmava isso como se não lhe restasse dúvida. Eu nunca disse isso ao meu pai nem a ninguém da minha casa, mas sempre, nas madrugas, até  pouco antes do amanhecer, pelas janelas do meu quarto, ouvia-se o hino da Alemanha tocando repetidamente num cômodo dos fundos da casa dos Munsberg. Nesse cômodo dormia Alfred, o filho mais velho da família. Ele cantava e ouvia aquele hino muito baixo, mas o vento conseguia trazer o som para a minha janela. Alfred fazia isso com a luz acesa, e batendo continência para um espelho, sempre fardado e com a bandeira da Alemanha estendida na parede imaculadamente suja de seu quarto. Eu era pequeno e não entendia o que queria dizer aquele ritual. Mas sabia que se fazia de maneira tão escondida, era porque tinha algo errado.

 

Alfred repetia isso todos os dias da mesma maneira e da minha janela eu sempre conseguia ver. Até o dia em que ele percebeu que eu o observava. Nossos olhos se encontraram sem querer na madrugada. Do outro lado do muro que separava nossas casas, ele me olhava de maneira estanha, cética, estática, como se eu pudesse fazê-lo algum mal ou como se ele o pudesse fazer a mim. Sem saber o que fazer, eu o cumprimentei e ele fechou a janela com veemência, apagando em seguida a luz do quarto. Todos achavam que Alfred era doente, pois pouco se comunicava. Mal saía de casa e quase que só era possível vê-lo através das janelas, que raramente eram abertas naquela casa.

Com a morte do meu tio, meu pai havia se tornado um antigermânico. E quando passava na calçada dos Munsberg, cuspia. E fazia isso de maneira clara, para que os Munsberg entendessem que não eram bem vindos na cidade. Um dia, chegou a fazer isso na cara da mãe de Alfred que não fez nada a não ser um pequeno resmungo em alemão, enquanto voltava para dentro de casa. Era evidente que ela não ficava satisfeita com as atitudes de meu pai, mas nunca fez nada mais que resmungar em alemão. Toda semana, em nossa casa, era comum que recebêssemos um convidado que estava direta ou indiretamente envolvido com os conflitos da guerra. Deputados, soldados, jornalistas, políticos, meu pai era um homem influente na época. Chegou a receber o próprio general Mascarenhas, pouco antes do seu embarque para a terra de Nápoles. Mas nuca lhes falou nada sobre a família de Alfred.

Influente e ilustre nome da sociedade carioca, meu pai, apesar de todo o prestígio e respeito, acumulava dívidas homéricas devido ao alto padrão de vida que queria afirmar ter perante os Munsberg e principalmente perante à sociedade.  O meu pai era um bom chefe de família, mas estava descontrolado financeiramente, embora soubesse exatamente como administrar cada centavo que devia e cada um que recebia no escritório. Assim sendo,  as consequências dessa sua necessidade de afirmação social nunca foram sentidas em nossa mesa antes da sua morte.

Em 1945, no salão de nossa casa, estavam todos reunidos em volta do Rádio, esperando um pronunciamento no programa “A Hora do Brasil”. Eu via todos tensos, fumando seus charutos e cigarros, acompanhando a locução de um fato histórico extraordinário.

 

A festa tomou conta da nossa casa e das ruas da cidade. O meu pai, de certa forma, sentiu a morte do seu irmão “vingada” naquele momento. Ele colocou o hino nacional brasileiro às alturas e gritou coisas indecentes aos Munsberg. Bêbado, atirou objetos pelo muro que nos separava. Fez dezenas de ligações e promoveu algumas festas para o povo e de graça. Perturbou nossos vizinhos durante mais de uma semana. Depois disso, ele começou a fazer denúncias sobre os últimos nazistas. Mas a essa altura, todo mundo queria mesmo era a paz. Já suplicávamos para que ele parasse de fazer aquilo, para deixá-los em paz, mas ele não se continha. Continuou a cuspir na calçada dos Munsberg e continuou a insultá-los de todas as formas. A mãe de Alfred respondia em alemão, indignada. Até que, num desses dias, ela faleceu. Vimos seu corpo ser retirado pelos bombeiros. Não obstante, meu pai comemorava sua morte, no meio da rua, gritando com eu euforia carnavalesca que havia morrido a Nazista do bairro. Gritava aos quatro ventos o que queria, enquanto Alfred somente o observava, extremamente calmo.

No dia seguinte, papai levou-me ao seu escritório, cumprimentou a todos com imensa alegria pelo final da guerra e entrou para sua sala. Para ele, haveria só meio expediente. Resolveria uns assuntos burocráticos e depois retornaríamos para casa. Foi quando Alfred chegou ao escritório. A expressão do seu rosto depois de atirar no meu pai  eu nunca pude esquecer, era extremamente fria. Antes de ir embora, atravessando a porta e se banhando na chuva novamente, ele virou-se para mim e olhou-me com os mesmos olhos do dia em que me pegou bisbilhotando que fazia nas madrugadas. Ele parou por um instante assim, debaixo de chuva, e depois seguiu seu caminho sem dizer qualquer palavra. Tempos depois, Alfred foi encontrado morto numa praça da cidade. Alguns dizem que o meu pai foi vingado por um amigo da família. Outros dizem que Alfred foi morto porque era nazista. Eu nunca soube se foi uma coisa ou outra, de fato, mas esse foi mais um dos motivos que me impulsionaram a seguir os caminhos do meu pai e tornar-me um advogado.

A verdade tornou-se uma espécie de obsessão para mim, e eu ficava irritado quando tinha alguma espécie de dúvida. Tanto que quando soube do assassinato de Alfred, fiz questão de ir ao local do homicídio para ver o seu corpo de perto. Eu nunca soube qual era a sua verdade. E nem mesmo quais eram as de meu pai. Quando cheguei ao local, o corpo já estava coberto, mas uma das mãos do cadáver permanecia exposta. Havia um anel entre os dedos e nele eu pude observar o desenho de uma suástica. Pedi para ver o rosto do defunto. E o policial levantou a coberta. Era uma noite deslumbrante, uma dessas que somente é possível ver quando estamos inebriados por uma dose de sensibilidade. O céu estava luminoso e os raios da lua refletiam na pele de Alfred.

 

FIM

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