O meu silêncio é um conjunto de facas cravadas num animal.
Vermelho intenso sangra a pele do mortal.
E a falta do verbo é punhalada dada ao pensamento
Que não o trará certezas de nada na realidade insana do momento.
Muquiranamente não penso. Mas o meu silêncio não me faz cadáver.
Abro as portas para que o vento varra de mim a poeira de maus sentimentos,
Pois minha alma é terra esperançosa
De solo rachado pelo sol quente do meu nordeste em quase dezembro
Que, portanto, também tem sede de água e não só de vento.
Minha vida é relógio que já contou sucessos, assombros e tormentos
De um céu em que já houve estrelas e que ainda haverá, contemplo.
Contudo, agora, eu conto as horas do futuro
Como viúva tecendo as vestes com que a virgem irá para o leito.
Todas as minhas noites me são absurdas.
Todas as minhas horas me são indústria.
E não paro.
Não paro...
No entanto, não me cansa esse meu estranho modo de viver
Como equilibrista em cima do muro, pisando em tijolos que desaparecem no abismo debaixo de mim.
E em sendo artista, é justamente nesse abismo que sei que hei de sucumbir.
Vivo como nos tempos do império... Como nas batalhas...
Mas, em meu palácio de sonhos
Não há tronos, nem reis, rainhas, coroas ou guardas.
Há apenas a plebe e uma luz no tablado.
Onde encontro a minha razão de viver.
Há coisas lindas e tenebrosas quando entrega-se a alma a isto.
E, apesar da certeza, o meu silêncio é o enorme e escandaloso abismo.
É mesmo preciso destruir dos homens todas as pontes.
Só para que entendam, antes de mais nada, a sensação do cair!
Só então assim é que se pode abrir a porta
Com a sensação de que algo melhor está por vir...
Mas, antes disso, terão de viver com o barulho do motor de um carro acelerando na garagem em ponto-morto!
Até que a vida lhe ponha a primeira marcha para partir.
Preciso continuar jogando tinta branca na paisagem do quadro que me disseram que estava pronto!
Os meus riscos são grosseiros, mas é com eles que preciso contornar a sensasão de abandono.
Hoje já nascem mais flores que as que plantei um dia em meu jardim.
Daí a certeza lógica de colheita farta no fim!
Só o que me mata é a noção de tempo,
Posto que as minhas rosas não florescem na batida do relógio,
Mas na balada do vento.
Por isso eu vivo soprando com tanta intensidade!
Por isso as noites me parecem absurdas! Nelas, até parece que não há vento.
Há coisas no meu quadro que são tão rubras que prefiro transformá-las em linhas curvas.
E é assim que consigo criar os meus próprios desvios...
É neles que eu gero a consciência dessa minha consciência de que nem sempre é preciso dormir.
Às vezes é preciso ficar acordado para não ter excesso de tempo.
Que só nos enchem de tédio como o ópio
De um ócio vergonhoso e em quase nada criativo.









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