A narrativa que segue, em primeira pessoa, é totalmente fictícia e unicamente de cunho literal. Não tendo nenhum compromisso com a realidade vivida. Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência... E nada além disso.
Já não parava meus olhos em um único lugar. Olhava tudo e nada ao mesmo tempo. Prestava atenção no cigarro acabando de queimar num cinzeiro de improviso enquanto o papo rolava solto e eu me perguntava o que fazia ali. Estava em mais uma dessas reuniões de projetos teatrais onde as pessoas geralmente não sabem ao certo o que querem fazer. Querem mudar, fazer algo “diferente”, mas não sabem como. Aí entram as divagações e toda espécie de propostas idiotas que acabam circundando o nada e terminam sempre na opção mais óbvia e comum.
Artista tem mania de querer ser diferente. Todo mundo que tem algum projeto diz “to com um projeto diferente, uma comédia interessante, um drama absolutamente inovador”. Desses, eu logo duvido, posto que, na maioria das vezes, é tão comum quanto um copo de plástico servindo ao lugar de um cinzeiro de luxo que fôra jogado no lixo. É claro que eu também digo isso, de vez em quando, mas só digo quando tenho certeza que realmente é diferente o que estou propondo.
Mas artista gosta da palavra “inovar”. Eles querem “inovar” a qualquer custo... E acabam virando seres de outro mundo quase, de outro planeta! Isso também é possível notar no modo como se vestem, na maioria das vezes. Principalmente esses mais novos. Tenho a impressão que estão sempre querendo exibir a sua criatividade em público. Querem ser metafóricos inclusive em seu próprio figurino. O que, por vezes, chega a ser ridículo.
No meio da reunião alguém notou o que acontecia comigo e me questionou:
-O que você acha disso?
Odeio quando me perguntam algo desse tipo. Porque não sei se me perguntam na intenção de que eu seja verdadeiro ou simplesmente um agradável massagista de egos. Na maioria das vezes só perguntam mesmo na intenção de que você concorde com o que está sendo proposto, que elogie, que acredite que vai ser implacável, que é genial, imprevisível e nada além disso.
-Do que?
-Da proposta!
-Eu acho um absurdo.
-Como assim absurdo?
-Isso não é inovador!
-Como assim não é inovador?
-É raza, sem propósito, não tem a ver com nada e já fizeram isso.
-Ah isso sim é absurdo. Eu nunca vi fazerem isso no teatro! Você viu? Você viu?
-Gente, para com isso! Pra quê vocês querem ser tão diferentes? Isso não vai dar em nada! O publico vai se perguntar “Que diabos é isso?” e vai pra casa sem entender merda nenhuma! E o pior é que vocês só distorcem o que é simples, fazem uma maionese do obvio e acham que estão fazendo alguma coisa... Mas que coisa? Continua-se fazendo e dizendo o que todo mundo já fez e já disse! Pra que maquilar o simples? Para de alimentar essa breguice!
-Eu não concordo com isso.
-Eu também não...
-Eu também não...
-É claro que não! Vocês não me perguntaram na intenção de que eu fosse sincero. Estou sendo sincero! Não acredito nessa breguice. Acho que o brega consegue ser mais autêntico que o que está sendo proposto. Desculpe por frustrar a todos, mas eu não estou de acordo com isso.
Pronto. O demônio implacável, o “Inimigo do Povo” de Henrick Ibsen estava ali. Eu mesmo, no meu corpo. Eu não gosto daqueles que discordam simplesmente por discordar, porque esses existem também. Mas eu gosto de dizer o que penso. Esse direito eu acho que todo mundo tem e deveria exercitar com maior freqüência, fundamento e autenticidade. Quando vejo um espetáculo que não gosto, eu saio correndo, por vezes. Porque sempre vem aquela velha pergunta no final de tudo: “O que você achou?” E quando eu sei que me perguntam isso para que eu lamba a cara deles, e somente com essa finalidade, eu fujo. Não gosto de ser estraga-prazer, mas acho que nós, artistas, precisamos de críticas sinceras, honestas e construtivas. E para alguns, deveria ser dado somente isso.
Depois disso a reunião tornou-se um fuzuê. E todo mundo me olhava meio torto. Todos falando ao mesmo tempo, com espaços para monólogos, vez ou outra, e eu ali, vendo as teses de defesa em prol da “inovação” nada surpreendente a que se propunham. Depois disso a reunião acabou e ficou decidido aquilo à que estavam dispostos. Voltei pra casa já sabendo que a primeira semana seria de flores, a segunda de tormentos e que, na terceira semana, todo o elenco já estaria disperso.
O ego é como um câncer. Se você não cuida, ele eclode e se alastra tomando inclusive o seu cérebro. Todo mundo quer ser genial, mas genial mesmo é saber que nem sempre se é. Eu voltei para casa na chuva, questionando-me, entre outras coisas, por que cuidar de artistas é tão complicado. Por que as pessoas se deslumbram? Basta um simples elogio ou mera concordância em um tema ou assunto e já se tornam verdadeiros pavões. É obvio que é ótimo ser elogiado. Mas o elogio não te acrescenta nada! Absolutamente nada! A classe artística tem andado de maneira tão superficial e tão pouco autêntica que quando vejo alguém elogiando alguém ou alguém me elogiando, eu me pergunto “será que isso é mesmo autêntico? Está mesmo sendo sincero(a) ao dizer isso?”
Eu não vejo glamour algum na minha profissão. Tenho raiva de quem não tem qualquer espécie de compromisso. Tendo a levar para o pessoal, sempre! Não omito isso! Porque está cheio de gente dizendo que quer, mas isso é uma vasta mentira! Não quer! Eu sei quem não quer ser artista de verdade! A maioria quer o glamour ou qualquer coisa que derive disso. Por fim, esses são os que acabam atrapalhando a vida dos outros. A gente sente quando alguém realmente é um artista. É visível. Tem gente que falta porque tem dor de cabeça... Eu odeio os que faltam por dor de cabeça! Odeio os que passam mal por qualquer besteirinha, odeio os que chegam atrasados por causa do trânsito, e me odeio quando passo pelo mesmo se me for imprevisível, odeio os que têm compromisso com qualquer outra coisa e odeio os que desistem. Esses geralmente são fracos em todas as questões de suas vidas. Mas é claro que eu não exalo tudo isso assim como exalo aqui, senão me diriam que odeio o mundo. O que, de certo modo, por um ângulo ou outro, não deixa de ser uma verdade. Amo viver, mas odeio o mundo.
A minha sensação é que não sou daqui, sou de outro planeta. O planeta da servidão. Ser servil não está em voga. E acho isso engraçado, porque a vida do artista, por exemplo, é de completa servidão, nada mais que isso. Sirvo minha vida para que você analise a sua. Sirvo meu corpo para que o meu corpo se utilize da vida sua e para que a vida sua também me transforme, afim de que eu possa compreender seu universo de maneira melhor e possa trazê-lo à tona em qualquer ocasião que for preciso para mim mesmo ou para qualquer um.
Adoro andar numa contramão, mas ela tem que ser autêntica. Eu insisto em desobrigar-me de andar por este caminho que sigo. Já repeti milhões de vezes que não quero... Não quero mais ser artista, mas acabo sendo justamente isso. E este foi o diálogo que tive comigo na chuva:
-Larga essa porcaria! Você não precisa participar desse ciclo. Pega teu diploma de contabilidade e vai fazer contas! Deixa de ser tão complicado, prolixo, analítico, emotivo, humano! Para com isso! Vai fazer outra coisa da vida. Vira máquina, vira? Deixa esse teu lado sentimental, sensitivo, deixa tudo isso. Viva como a maioria das pessoas... Seja normal, seja realista. Ninguém está interessado em criação genuína, pouco se lixam pra talento, ninguém na verdade entende disso. Todo mundo entende o glamour, o chique, o atraente, o que vai de encontro aos seus sonhos materialistas. Desiste disso! Larga essa porcaria! Essa imundície egocêntrica, esse poço sem fundo, essa cretinice absurda, larga isso, larga!
Mas é obvio que todo já sabe o que aconteceu quando cheguei em casa! Tomei um banho, livrei-me das roupas molhadas de chuva, preparei um café, acendi um bom cubano e abri um livro. Num bom livro as coisas também não são tão fáceis. Tudo até parece ser real e genuíno. E sempre, ao final deste, ou de um belo filme emocionante, emocionado eu repito: “Eu não consigo! Eu não consigo!”
De uma coisa estou cada vez mais certo: Nem tudo que se pensa deve ser dito. Senão você morrerá de sincericídio. Você deve ser verdadeiro, o máximo possível, mas cuidado com os campos dos egos elísios. Quando inflamados, eles são como explosivos. Destroem tudo que há em volta. Se optar por ser sincero, seja sempre e com muita delicadeza, mas se optar por se mascarar e tapar os buracos que não são vistos, o melhor é utilizar-se das velhas análises subjetivas. Elas costumam ser o melhor remédio para a alma dos “artistas”.









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