Interrompo momentaneamente a continuidade da novela que comecei a escrever para postar aqui uma carta que enviei a um amigo padre. Este, porventura, é meu amigo de infância, e assim sendo, vi todo o diferencial que tinha sua alma desde quando era criança. Estudamos juntos, num colégio de freiras no interior de Alagoas, e ali surgiu o início de uma grande amizade. Embora distantes, sempre trocamos e-mails. Recebo sempre mensagens e textos que ele envia para os fiéis e familiares. Muito embora eu não seja católigo e hoje não siga religião nenhuma, tenho um profundo respeito pela fé e acredito em Deus, mesmo que para muitos seja de maneira um tanto quanto “vagabunda”. Transcrevo então a carta que enviei-lhe em resposta a um artigo recebido. Talvez nem tanto ao artigo propriamente, que falava a cerca do Nascimento de Jesus, mas em resposta à carta do estimado amigo inspirado na fé para um simples ator que não acredita em religião alguma.
From: Oscar Calixto
Sent: Friday, December 25, 2009 6:17 AM
To: Padre Thiago Soares
Subject: Re: FELIZ NATAL! "Vamos a Belém?"
Meu amigo, Padre Thiago;
Eu li e gostei muito do seu artigo. Tenho que dizer que fico muito feliz por ver meu amigo tão cheio do amor de Cristo. Sou testemunha de quão presente sempre esteve essa semente que agora, vê-se, é árvore frondosa em seu coração. Sinto muitas saudades de você, meu amigo, e também o incluo em minhas orações. Incluo você, sua casa, sua igreja e sua família. Incluo principalmente os que mais necessitam de palavras como as suas que não somente esclarecem que há alguém muito importante que nos amou e nos ama, que nos ouve e que nos dá a mão quando é preciso e que veio ao mundo para nos dar a salvação, mas que mostra o quanto somos egoístas com essa falsa fé que habita em nossos corações. No entanto quem sou eu para falar disso e querer ter alguma propriedade ou inocência nessa questão! Não passo de um pecador que mais pede perdão que outra coisa... Contudo, acredito que ainda sou filho e que ainda posso ser merecedor de perdão e da remissão dos meus pecados.
Há alguns anos, não muito distantes, cheguei a questionar a Deus o porquê de tanto sofrimento em minha vida, hoje eu não o questiono mais e só agradeço pelo que me dá ou me permite passar, pois tudo que nos é dado é para algum aprendizado nessa vida. Ainda que nunca tenha tido em meu coração a maldade, a perversidade, ainda que eu não seja um ser humano ruim (sei que não sou), estou certo de tudo que enfrentei e enfrento é por algum motivo nobre para as causas da minha alma, do meu espírito.
Eu, mero pecador, nesse dia tão especial, só quero agradecer por um dia ter vindo o Cristo que nos libertou e me permitiu encontrar um amigo de alma tão nobre e tão bonita como a sua. Aqui, já quase ao amanhecer do dia, lembro-me de todas as nossas aventuras no colégio, na rua e de algumas conversas que tínhamos sobre o mundo e sobre a vida. Eu, honestamente, ando chocado com as coisas que tem acontecido no mundo atualmente. E embora distante de você, meu amigo Padre, eu sei que posso compartir de alguma coisa nobre desse ser que vive tentando consertar a alma que há de ir embora logicamente arrependida.
Eu não sei se Deus nos põe à prova, mas faz tempo que a vida me desafia. Tenho lutado pelo meu lugar ao sol e, acredite, isso tem sido quase como querer regar um jardim com torneira que nem pinga. Graças a Deus estou bem de saúde, e mesmo que não estivesse, mesmo assim, o faria. Eu curei o meu corpo, mas sei que a minha alma também precisa de medicina. Essa correria toda, lutando todos os dias pela mesma coisa, tentando ser um ser humano cada vez melhor; por vezes até desanima. Posto que nos vem a prova novamente e logo nos perguntamos o por quê que nossa bela música desafina!
Amigo, não quero ser mais um a lhe pedir orações… Como se pedir para orar por mim, pela minha vida, pela minha casa e minha profissão fosse remédio. Não vou lhe pedir isso não, porque apesar de saber que Deus o escutará muito mais que a mim, talvez eu não queira que orem para que Deus repare essa minha ferida em prol do fim desta agonia e da minha própria "felicidade". Talvez eu até necessite que essa ferida não feche agora, talvez eu necessite que ela sangre tudo que tem que sangrar, para que, quem sabe assim, eu me torne mais forte e tenha minha alma mais limpa, me tornando assim mais merecedor daquilo que anseio nesta vida.
Eu sinto muita falta das nossas conversas, nós víamos a vida como uma coisa tão simples, não é? Pois a cada dia acho-a mais simples ainda, nós é que verdadeiramente a complicamos. Às vezes pego-me aqui pensando que essa nossa luta pela "independência", pela nossa sustentabilidade financeira é uma coisa muito cretina. Pagamos por tudo aquilo que Deus nos deu de graça! Você não acha isso irônico? Gostaria muito de saber quem foi o primeiro que cercou um pedacinho de terra e disse que era seu... Seu? Como? Não sabia que Deus tinha cartório! E nem que lavrava escritura! Por causa desse mentiroso é que hoje corremos tanto para manter a nossa "morada". E sempre que pago as contas de casa, o bendito aluguel, o supermercado e as contas do mês, eu fico pensando que babaquice o mundo assumiu para os seus dias, pois pago as contas de um lugar que verdadeiramente nem é a minha morada, o aluguel de um pedaço de terra que, por teoria, foi-me dado de graça, assim como o alimento que dela surge! Tudo isso não foi feito para ser vendido, segundo a gênesis da humanidade. Enfim, hoje, eu não pedi nada a Deus não, nem mesmo perdão. Sei que pedir é um costume descarado que nós, pobres mendigos desse mundo, temos. E foi exatamente por isso que não pedi absolutamente nada. Apenas agradeci por tudo que recebi e que recebo da vida, pela Sua Onipresença e por Sua breve estadia como homem nessa terra. Sendo assim, também acho, amigo, que não devo lhe pedir nada, esse e-mail é só mesmo para agradecer o seu artigo, a sua existência e a sua eterna amizade.
Um abraço acalentador no seu coração, meu Amigo, Padre e Irmão... Que sua palavra seja sempre inspiradora e inspirada para que os pobres corações e almas daqueles que vão na casa do Pai possam algum dia entender que é preciso parar de pedir tanto e passar a agradecer mais, posto que se fôssemos colocar na balança tudo que realmente somos e fomos até agora, o que realmente presta de nós, não pesaria quase nada.
De um pobre ser que luta para que este corpo repouse quieto, viva um pouco mais tranquilo na máquina endiabrada que o homem inventou e que trabalha o espírito esperando ao menos que, quando se for, digam que lá se foi uma nobre alma.
Oscar Calixto
Pecador, Ator, Diretor e Dramaturgo...
Das coisas da Vida e da Alma.









0 comentários:
Postar um comentário