quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Cortando Cebolas

Sobre o Texto

A história de “Cortando Cebolas” ou “A Hora do Jantar” foi criada a partir do entendimento e rebuscamento dos escritos de um grande filósofo Alemão chamado Schopenhauer. Ele, que prefaz o entendimento da vida como “vontade e representação”, faz com que vejamos os atributos e mudanças deste mundo como fatos totalmente integrados à nossa “vontade de realização” ou de “libertação”.

Sendo assim, este roteiro, é, através de seus personagens, essencialmente crítico e de caráter libertário. Onde todas as personagens realizam a sua vontade mais oculta em busca de sua própria libertação, inflingindo assim, em parte, “positivamente”, sobre alguns signos ainda presentes em nossa sociedade.

A violência contra a mulher é fator recorrente e, sabemos, não somente inerente às camadas mais pobres da sociedade. Há, ainda hoje, isto em diversidade. Nas mais diferentes camadas e organizações sociais.

Esta peça tem, portanto, uma função humanitária inteiramente positiva, visto que colocamos a mulher como foco principal deste signo de liberdade. Prega, neste sentido, a igualdade de ações, de vontades e representações entre homens e mulheres. Tudo isto, para falar que antes de uma “classificação sexual” existe a vida, que é igual para todos. E como em qualquer organização biológica, em qualquer habitat, a priori, todos os seres são livres, assim deve ser a vida do homem ou da mulher! Resgatando um tempo onde isso não era possível, ultrapassamos a barreira do mais “lógico” e passamos a encontrar, por vezes, homens no “lugar comum” de mulheres, como é o caso do Peixoto, por exemplo, bem como mulheres assumindo postos que concernem à natureza comum dos homens da década de 40, na valentia, na busca pela liberdade e na imposição de sua vontade pela necessidade de afirmação e realizando-a com o intuito de aniquilar determinado problema, separando de sua própria plantação o “joio do trigo”. Isto tudo afim de evidenciar que este senso de liberdade é valor que não escolhe sexo, nem idade. Todos temos o direito e, antes de mais nada, a necessidade de fazê-la presente. Mas para que esse direito se concretize é necessária a luta pela concretização da vontade e, finalmente, a sua realização neste mundo material.

Schopenhauer é, por si só, essa vontade. Ele busca, em seus escritos, este senso. Busca encontrar no lugar comum a explicação para o sentimento que não se explica e, por fim, a idéia da satisfação através da liberdade. Mas para chegar a isto, passamos por caminhos sempre muito dolorosos. Como ele mesmo diz: “A satisfação ou a felicidade, não pode, consequentemente, ser outra coisa senão a supressão duma dor, duma necessidade; pois a esta categoria pertencem, não apenas os sofrimentos reais, manifestos, como também qualquer desejo cuja importunidade nos perturba o repouso, além do tédio mortal que da existência nos faz um peso.”

Creio que assim se defina cada personagem dessa história ou assim se defina, quem sabe, toda a peça em si. O principal neste argumento é notar que é necessário que entendamos, e que, respeitando a vontade e a liberdade individual, continuemos vivendo de maneira mais justa e digna. Obviamente lutando pela supressão de nossas dores, coisa que nem sempre estará necessariamente atrelada a uma realização trágica para que aconteça. Aqui, ao final da peça, embora saibamos que a personagem pricipal terá sua “liberdade” retirada, temos a consciência de que, ainda assim, ela estará livre! Renovando assim os valores e conceitos do que, para ela, é liberdade.

Para a nossa personagem central, este senso tem um caráter muito mais profundo e vai além da “libertação física”. É isto que faz este roteiro sair do lugar comum da ficção para entrar no lugar da necessidade. É preciso que saibamos onde está a nossa “não-liberdade” e aonde é que nós mesmos nos privamos de sermos livres. Até onde permitimos que nos privem dela e, consequentemente, de nossas “vontades” sob a representação das nossas vidas. Tudo isto está aqui, ainda que representado de forma trágica, mas nem por isso impossível ou absurda.

Esta será  uma das minhas próximas montagens.

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